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Mas pra que serve isso?

Talvez seja essa a pergunta que mais escuto quando comunico a alguém que tenho me dedicado aos estudos clássicos. E as duas respostas, que de fato me movem, nunca parecem satisfatórias.


Uma: quero ler no original textos antigos que até hoje ecoam em nossa cultura literária. Duas: quero ler as fontes documentais e epigráficas dos processos formativos dos cristianismos originários.


É um interesse no passado remoto que justifico, para mim e para as pessoas, com um olho no presente: acessar o anteontem para compreender dois fenômenos culturais do hoje - literatura, religião.


Mas a resposta nunca responde. E quem danado se interessa por isso? Uma zapeada no Instagram e sabemos que os perfis classicistas contam, quando muito, alguns milhares de seguidores.


Mas o tempo presente quer saber de alcance digital e sucesso comercial. As conversas de bar e zap giram em torno de trending topics & tops 5. "Entre no BBB!" é um conselho de mãe - a minha.


Se o presente justifica-se a si mesmo por meio de indicadores objetivamente aferíveis e atuais, dedicar-se a uma atividade de medidas irrisórias torna-se nada mais que capricho individual.


A coisa piora se pensarmos que só instituições públicas e meia dúzia de confessionais conseguem sustentar estruturas de pesquisa em estudos clássicos. E olhe lá. Já ouvi de uma professora da UFPB:


- Isso aí [Letras Clássicas] é um trambolho de que precisamos nos livrar!


E precisam porque os números assim o pedem. Porque as antigas justificativas (o ideal de universalidade, por exemplo) já foram desconstruídas. Porque o futuro demanda outras tecnologias.


Alguém pode propor o argumento de que a contemporaneidade é plural e abarca não apenas os grandes holofotes, mas também os pequenos nichos onde se podem acender velas em grego e latim.


É um argumento que vem ao encontro de minha própria perspectiva cética do universo e da vida humana. Os sistemas de valor são relativos e podem coexistir, a menos que se anulem.


Mas ele esbarra em uma questão prática: para sobreviver, um fenômeno cultural precisa de financiamento e pessoas. E para onde vão as pessoas quando as finanças indicam e contraindicam vias?


São questões de que, independentemente das respostas socialmente aceitáveis, escapo ao fim palmilhando o único terreno onde números (por enquanto) pouco importam: a consciência.


Ainda que os estudos clássicos minguem, a ponto de perder as cadeiras universitárias e os ouvidos de interlocutores, continuarão sendo o fio por onde me envolvo para me reconhecer no mundo.


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