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Entre sonares e arpões

Um piano e uma biblioteca. Eis o desafio que lanço para corretores de todos os gêneros e não sei se compreendem mal, ou apenas fazem ouvidos de mercador diante de um ruído estranho.
Ah, sim, como não! Aqui você pode colocar um painel, duas prateleiras de livros e um espaço logo abaixo para o piano. Mas veja, o edifício tem piscina, churrasqueira e sauna a vapor!
E este ainda não é o problema.
O problema, alguém pode dizer, é que o Sul descobriu João Pessoa. E sempre há um rico paulista disposto a pagar 500 mil numa quitenete, gourmetizada com o nome de loft para aluguel.
Então, se você tem piano, livros e amigos para receber, faça o favor de ser milionário. Ou abra mão desses luxos e aceite que, a partir de agora, a casa é mero lugar de passagem pra dormir e ver TV.
O terreno para um casa não é opção. Custa um olho da cara e o outro, não se pode perder para construir a casa em troca de dois buracos ao lado do nariz, para espanto da vizinhança melindrosa.
O problema, digo eu, é maior.
A cidade caiu na rede de arrasto. Uma vez nela, o oceano ganha preço e não pode mais ser território livre dos peixes. Há que se contentar com o aquário e o aquário tem regras de cativeiro.
Tempo é dinheiro, crédito também. E o financiamento, estando logo ali, torna o aquário disponível em troca de uma dívida que aprisiona o peixe ao crédito e o crédito ao tempo da grana.
Um piano e uma biblioteca são corpos estranhos, chamados dionisíacos ao tempo do ócio, da criação e do viver para si e com os outros, sem a medida da moeda. É outro o espírito da dupla.
E a dupla não tem espaço na cidade. Melhor que ative seus ritos em alguma periferia perigosa, ou no recolhimento de um interior distante, entregue a porcos e cobras que se devorem a si mesmos.
Por isso, talvez, dizer não aos corretores, resistir ao velho e bom sonho brasileiro da casa própria, seja um ato de coragem, um ato de liberdade em meio a sonares e arpões em pleno mar aberto.

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