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Conclave, o filme

"O senhor acredita mesmo que o Espírito Santo escolhe o Papa?" - perguntou o jornalista. E respondeu o então cardeal Ratzinger, em um vídeo que pode ser visto circulando hoje no YouTube:


"Sim, não esta ou aquela pessoa. Há muitos Papas na História que, evidentemente, não podem ter sido uma escolha do Espírito Santo. Mas Ele guarda o processo e evita que a coisa toda se perca."


Pensei nisso ao ver o 'Conclave' de Edward Berger. Na superfície, parece o que todos comentam: um filme sobre intrigas políticas e pessoais, nada transcendentes, entremeadas na escolha do Papa.


Mas um filme é mais que roteiro. Dois detalhes de 'Conclave' me chamaram a atenção tanto pela importância nesta obra de arte, quanto pela potência em captar sutilezas reais de uma cultura.


Primeiro. O processo eleitoral caminha para o impasse depois que dois papabili têm candidatura e reputação arruinadas. Os escrutínios se sucedem sem que nenhum nome aponte a saída.

Então, os tumultos do mundo, literalmente, explodem. Uma janela da Capela Sistina é quebrada e os cardeais são obrigados a abandonar o rito e reunir-se fora dali para confrontar a realidade.

Quando retornam à Capela, a atmosfera bélica se desfaz. Sopra o vento pela janela quebrada e eles conseguem chegar ao consenso em torno de um nome que - reviravolta! - trará novo impasse.

Mas, dessa vez, o impasse se dá apenas entre o eleito e o decano. Este fica sabendo da verdade, que o escandaliza, mas é convencido pelo novo Papa de que a Natureza é mais diversa do que ele supõe.

E aí vem o segundo detalhe. O filme vai acabar. O decano abre uma janela. O vento sopra outra vez. E, pela janela, o decano vê duas freiras, duas mulheres ganhando a rua por uma porta - entreaberta.

Espírito é uma palavra de origem latina. Vem de 'spiritus', que significa originalmente sopro, vento, hálito, respiração. Daí evoluíram os sentidos de inspiração, alma, gênio ou sopro divino.

Quando faz o vento soprar nas duas cenas em que as duas complicações do filme se resolvem, o diretor sai da imanência das relações humanas para mergulhar na transcendência de um cultura.

Não creio em Espírito Santo ou qualquer outra entidade divina que decida os destinos humanos, mas entendo que seres humanos fazem escolhas com base nas crenças que têm nesses seres.

A Igreja Católica é uma instituição milenar que não pode ser compreendida sem que se estudem os processos políticos, econômicos e sociais nos quais ela se formou e evoluiu até aqui.

Mas também é produto e produtora de uma cultura que, como qualquer outra cultura, cria uma linguagem, põe em movimento os signos por meio dos quais opera e se reconhece e se reproduz.

Ignorar esta dimensão seria um reducionismo tão grande quanto crer, como nem Joseph Ratzinger acreditou, que o Espírito Santo soprará um nome no ouvido de cada cardeal quarta que vem.

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