Se hoje é dia de malhar o Judas, respeito a tradição - embora o
considere um pobre diabo que tem sido muito mal pago pelo serviço sujo
que o chefe lhe reservou e ele executou fiel, bravamente.
Mas
hoje acordei com fome e sede de justiça e, mesmo não crendo na paixão de
ontem nem na ressurreição de amanhã, creio em que serei saciado. Feliz
seja, pois.
Se Judas não me pinga no pires, que escorra Caifás da xícara - outra personagem a quem os dramaturgos bíblicos deram papel sórdido, embaçando à posteridade a visão do estadista que provou ser.
Duvida, moça? Leia Geza Vermes. Preguiça, moço? Li eu e lhe digo.
O professor Vermes - que nasceu judeu, cresceu católico, tomou e largou a batina, morreu emérito de Oxford - escreveu as duas páginas mais justas sobre o que se passou em Jerusalém naqueles dias confusos.
Os cristãos viram em Caifás o sumo sacerdote que entregou Jesus à morte, diz ele, e se esqueceram do líder que preservou seu povo (e seu posto) da violência imperial.
Os romanos toleravam diferenças, mas não admitiam revoltas. Quando ocorriam, faziam sentir a força. Como em 4 a.C.: 2000 judeus crucificados pelo governador Varo após uma rebelião messiânica.
Caifás devia ter o passado próximo em mente quando, ao ver-se diante do caso de mais um pretendente a Messias que agitava o povo e perturbara o templo, disse aos seus pares:
"É melhor que um só homem morra pelo povo." (João 18,14)
Há nesta frase de Caifás a crueldade benevolente de que só um estadista é capaz, no esplendor extraordinário de sua sabedoria - que não é a do pão nosso de cada dia, mas nos livra de muitos males.
Ela é suficiente ainda hoje para justificar toda uma teoria do estado - ou refutá-la. E foi suficiente ainda lá para adiar em mais de trinta anos o massacre definitivo de Jerusalém pelos romanos.
Nosso tempo, que às vezes padece de idealismos dogmáticos, tem entre suas vantagens a abertura às revisões. E elas são redentoras, ainda que seja desconfortável enxergar a chama sem os óculos escuros.
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Varo, governador da Síria que ordenou a crucificação de dois mil judeus por causa de uma rebelião messiânica, pouco antes do nascimento de Jesus de Nazaré.
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