Enquanto o leilão da presidência da República se desdobra, entre o Jaburu e a Jararaca, o cuspe e o descarrego, fico cá pregando metáforas com meus botões, não sei ao certo em qual das casas.
E vejo a República surgir, das nuvens de ainda-verão, como um avião atravessando a turbulência em seus três eixos.
De asa a asa, sacoleja a economia de um lado e chacoalha o sistema político do outro. Na longitude, a imprensa mete o nariz nas fendas do ar e, aterrorizada, a cauda da opinião pública grita.
Lá dentro, na cabine infestada de comissários, pilot@ e copilot@ tentam se manter na vertical, disputam os pedais e o manche, ameaçam guinadas no leme ao nariz e à cauda, enviam torpedos.
Balancem, asas! Descabele-se, tripulação! Vomitem, passageiros!
Eis o avião da República, hoje como ontem. Obra extraordinária do engenho humano, tão forte quanto frágil, tão sustentável no ar quanto arremessável contra o mar, o monte, o vácuo das estrelas.
Onde viajo? Por quem tomo partido? Contra quem dedico voto ou cuspo em desprezo? Ai de mim, respirante involuntário da atmosfera, passageiro aleatório do avião que vejo e onde sacolejo.
Falta-me em convicção no ar o que sobra em desconfiança no aparelho de vôo e incompatibilidade figadal com os galhos que arvoram da raiz, do tronco de milito - militares, militantes, milicos.
Então, como em qualquer nave, corro ao centro de gravidade e, fiel a poucas e tíbias causas, perco-me dos desvãos da retórica, refugio-me com outros rotos e desenganados no abrigo da dialética.
Deixemos que a tripulação exponha a imperícia e a vileza enquanto se engalfinha, cozinhemos a substituta com a farinha da iniciativa, os ovos do bem estar e o fermento da cultura. Cerejas?
É o que suspiramos uns aos outros na esperança de que alguém se ofereça para ser nosso delegado e aguarde a hora marcada de disputar os pedais, assumir o manche, até ser picado nos três eixos.
E se a nave cair antes ou depois da hora? Voltemos ao começo.
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