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Últimas palavras


- Boa noite.

- Boa.

- O que o traz aqui?

- Dor, muita dor.

- Onde?

- No dedo. Um corte. Na porcelana do vaso sanitário.

- Vixe! Navalha na carne!

- Hehe. Viu a peça?

- Como?

- Deixa. Nem eu.

- E o dedo?

- Não fui ao hospital na hora porque achei bobagem, mas a dor apertou, voltou a sangrar e, quando fui, passava de seis horas.

- Não suturaram mais.

- Não. Disseram que é lavar e proteger até cicatrizar.

- Isso mesmo. Mais alguma coisa?

- Sim, a dor.

- ..?

- Uma pomada, um analgésico, uma operação, alguma coisa pra

- Lave, proteja e espere.

- Mas já faz 10 dias, eu quero dormir em paz.

- Quer um calmante?

- Não, quero que ampute o dedo!

- Boa noite, senhor.

- Boa.

Na calçada, considero cruzar a rua e acertar em cheio um carro veloz com o dedo indicador. Eu entraria triunfante na UPA. Agora sim, anestesie, opere, ampute, pelo amor de algum deus!

Mas o carro parou antes da faixa. Efeito manada, os demais também. A rua é inútil e nenhum auto / passaria sobre meu corpo. Cantou um poeta. No entanto, dizemos sim ao apelo.

Corri à farmácia. Chamei o balconista de lado e contei o caso pela quina da boca. Ele sorriu como um pajé de mil quatrocentos e antes de o português chegar debaixo da tal bruta chuva.

Mas o pajé era baratinho. O sujeito atirou cento e trinta reais na cesta e garantiu: amanhã você nem vai se lembrar de hoje à noite. Esqueci a faca no bolso e pensei apenas na navalha do vaso.

Voltei pra casa, a dor já ia passando só pela expectativa de passar. Subi as escadas num pulo, atirei três comprimidos de cada caixa na boca e deixei o copo fazer dela o delta do Amazonas.

A dor passou, a sanidade foi restaurada, a vista começou a ficar turva e só então caí em mim: "amanhã você nem vai se lembrar de hoje à noite". Olhos de chinês do Paraguai arregalados!

Nada mais a fazer. Tudo está consumado. Em suas mãos, leitores, entrego o meu espírito. Evitem vasos, médicos e balconistas. E mandem ler uma crônica de sétimo dia em memória de mim.

*



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