Pular para o conteúdo principal

Na modorra de trezentos verões


De repente, subo a serra e encontro Campina Grande como se ela tivesse dado um salto para julho. Céu de chumbo, chuva nos telhados, vento fresco pela janela.

Se eu tivesse nos pulmões a força de um furacão, sopraria estas nuvens para Boqueirão e as manteria lá, pagando por sua ausência prolongada, até julho de fato chegar.

Mas não tenho; como não tenho a força da oratória para arrebatar quem já padece ou quem brevemente não mais poderá se esconder em poços e caixas d'água.

Tudo o que faço é botar os violinos do concerto duplo de Bach pra me embalar na quietude de uma manhã sem passado nem futuro que venham lembrar suas faturas.

E lá vai um violino fugindo do outro, como os deuses vão da humanidade ou os amados dos amantes ou ainda a sala de mim mesmo, até que os tímpanos vibram:

- Tá faltando água. Vai comprar?

É Gerusa, a sábia de Santa Terezinha, sem deixar de lado as velhas convicções:

- Hoje até que a música combina, mas quando o céu abre e o sol brilha, sei não, sei não...

Aguardo Itzhak Perlman e Pinchas Zukerman encerrarem o serviço e saio à beira do riso, achando graça de ir comprar o que está caindo do céu e escorrendo pela sarjeta.

No mercado, topo com curiosas escusas: tem água, mas falta um homem que carregue o garrafão. Mostro os meus braços e pergunto se servem.

A mulher insiste que um dos carregadores volta já; atiro a nota no balcão e, antes que o troco venha, vou à carga. A mulher primeiro protesta, depois pede perdão.

Acomodo o garrafão no carro, guardo o troco e volto pra casa, bem lembrado de que não damos saltos; cá dormimos, gemendo e chorando, na modorra de trezentos verões.

*

Slaves Carrying a Barrel of Wine, por Henry Chamberlain


*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conclave, o filme

"O senhor acredita mesmo que o Espírito Santo escolhe o Papa?" - perguntou o jornalista. E respondeu o então cardeal Ratzinger, em um vídeo que pode ser visto circulando hoje no YouTube: "Sim, não esta ou aquela pessoa. Há muitos Papas na História que, evidentemente, não podem ter sido uma escolha do Espírito Santo. Mas Ele guarda o processo e evita que a coisa toda se perca." Pensei nisso ao ver o 'Conclave' de Edward Berger. Na superfície, parece o que todos comentam: um filme sobre intrigas políticas e pessoais, nada transcendentes, entremeadas na escolha do Papa. Mas um filme é mais que roteiro. Dois detalhes de 'Conclave' me chamaram a atenção tanto pela importância nesta obra de arte, quanto pela potência em captar sutilezas reais de uma cultura. Primeiro. O processo eleitoral caminha para o impasse depois que dois papabili têm candidatura e reputação arruinadas. Os escrutínios se sucedem sem que nenhum nome aponte a saída. Então, os tumultos d...

Mas pra que serve isso?

Talvez seja essa a pergunta que mais escuto quando comunico a alguém que tenho me dedicado aos estudos clássicos. E as duas respostas, que de fato me movem, nunca parecem satisfatórias. Uma: quero ler no original textos antigos que até hoje ecoam em nossa cultura literária. Duas: quero ler as fontes documentais e epigráficas dos processos formativos dos cristianismos originários. É um interesse no passado remoto que justifico, para mim e para as pessoas, com um olho no presente: acessar o anteontem para compreender dois fenômenos culturais do hoje - literatura, religião. Mas a resposta nunca responde. E quem danado se interessa por isso? Uma zapeada no Instagram e sabemos que os perfis classicistas contam, quando muito, alguns milhares de seguidores. Mas o tempo presente quer saber de alcance digital e sucesso comercial. As conversas de bar e zap giram em torno de trending topics & tops 5. "Entre no BBB!" é um conselho de mãe - a minha. Se o presente justifica-se a si mes...

Entre sonares e arpões

Um piano e uma biblioteca. Eis o desafio que lanço para corretores de todos os gêneros e não sei se compreendem mal, ou apenas fazem ouvidos de mercador diante de um ruído estranho. Ah, sim, como não! Aqui você pode colocar um painel, duas prateleiras de livros e um espaço logo abaixo para o piano. Mas veja, o edifício tem piscina, churrasqueira e sauna a vapor! E este ainda não é o problema. O problema, alguém pode dizer, é que o Sul descobriu João Pessoa. E sempre há um rico paulista disposto a pagar 500 mil numa quitenete, gourmetizada com o nome de loft para aluguel. Então, se você tem piano, livros e amigos para receber, faça o favor de ser milionário. Ou abra mão desses luxos e aceite que, a partir de agora, a casa é mero lugar de passagem pra dormir e ver TV. O terreno para um casa não é opção. Custa um olho da cara e o outro, não se pode perder para construir a casa em troca de dois buracos ao lado do nariz, para espanto da vizinhança melindrosa. O problema, digo eu, é maior. A...