De repente, subo a serra e
encontro Campina Grande como se ela tivesse dado um salto para julho.
Céu de chumbo, chuva nos telhados, vento fresco pela janela.
Se
eu tivesse nos pulmões a força de um furacão, sopraria estas nuvens para
Boqueirão e as manteria lá, pagando por sua ausência prolongada, até
julho de fato chegar.
Mas não
tenho; como não tenho a força da oratória para arrebatar quem já padece
ou quem brevemente não mais poderá se esconder em poços e caixas d'água.
Tudo o que faço é botar os violinos do concerto duplo de Bach pra me embalar na quietude de uma manhã sem passado nem futuro que venham lembrar suas faturas.
E lá vai um violino fugindo do outro, como os deuses vão da humanidade ou os amados dos amantes ou ainda a sala de mim mesmo, até que os tímpanos vibram:
- Tá faltando água. Vai comprar?
É Gerusa, a sábia de Santa Terezinha, sem deixar de lado as velhas convicções:
- Hoje até que a música combina, mas quando o céu abre e o sol brilha, sei não, sei não...
Aguardo Itzhak Perlman e Pinchas Zukerman encerrarem o serviço e saio à beira do riso, achando graça de ir comprar o que está caindo do céu e escorrendo pela sarjeta.
No mercado, topo com curiosas escusas: tem água, mas falta um homem que carregue o garrafão. Mostro os meus braços e pergunto se servem.
A mulher insiste que um dos carregadores volta já; atiro a nota no balcão e, antes que o troco venha, vou à carga. A mulher primeiro protesta, depois pede perdão.
Acomodo o garrafão no carro, guardo o troco e volto pra casa, bem lembrado de que não damos saltos; cá dormimos, gemendo e chorando, na modorra de trezentos verões.
Tudo o que faço é botar os violinos do concerto duplo de Bach pra me embalar na quietude de uma manhã sem passado nem futuro que venham lembrar suas faturas.
E lá vai um violino fugindo do outro, como os deuses vão da humanidade ou os amados dos amantes ou ainda a sala de mim mesmo, até que os tímpanos vibram:
- Tá faltando água. Vai comprar?
É Gerusa, a sábia de Santa Terezinha, sem deixar de lado as velhas convicções:
- Hoje até que a música combina, mas quando o céu abre e o sol brilha, sei não, sei não...
Aguardo Itzhak Perlman e Pinchas Zukerman encerrarem o serviço e saio à beira do riso, achando graça de ir comprar o que está caindo do céu e escorrendo pela sarjeta.
No mercado, topo com curiosas escusas: tem água, mas falta um homem que carregue o garrafão. Mostro os meus braços e pergunto se servem.
A mulher insiste que um dos carregadores volta já; atiro a nota no balcão e, antes que o troco venha, vou à carga. A mulher primeiro protesta, depois pede perdão.
Acomodo o garrafão no carro, guardo o troco e volto pra casa, bem lembrado de que não damos saltos; cá dormimos, gemendo e chorando, na modorra de trezentos verões.
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Slaves Carrying a Barrel of Wine, por Henry Chamberlain
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