Dia desses, pedi corrida no über e fui parar na Grécia Antiga. Não que a
viagem tenha sido tão longa, foram só uns dois ou três quilômetros do
Tambiá a Manaíra; mas o motorista foi longe.
Além de muito
simpático, o rapaz era filósofo. Não desses de botequim, muito menos de
YouTube. Filósofo profissional, com bacharelado na Federal e o direito,
nos termos da lei, de filosofar.
Mas, como da faculdade à
realidade vai certa distância, o filósofo não engatou nos tortuosos
editais de Pós e terminou num cargo comissionado de prefeitura, sem
receber o salário há meses.
Tem escapado da fome com o über e tão
bem que já pensa em fazer do volante o ganha-pão. Vai longe o rapaz,
porque conduz bem o carro e o papo. Vejam vocês o que ele me explicou.
- O senhor talvez não saiba, mas a verdade é que isso aqui é uma ilusão.
Belisquei o dedo. Ele foi ao ponto: - não, não, estou falando do
movimento, a verdade é que não estamos indo de lugar nenhum a lugar
algum e isso já ficou muito bem comprovado milênios atrás.
- Os
paradoxos de Zenão? - perguntei. Não cursei Filosofia, mas curiosidade é
uma pulga que sempre me atacou. Ele fez que sim e esmiuçou a coisa toda
com uma propriedade de dar gosto.
Pra ir de um ponto a outro,
alguém teria que passar por 1/2 do caminho; pra chegar à metade, teria
que passar por 1/4; e assim sucessivamente, por uma infinidade tal de
pontos que, a rigor, ninguém sai do canto.
A coisa todo foi muito
mais e melhor esmiuçada. Ele falou de tartarugas e Aquiles, enveredou
por limites e convergências de que pouco ou nada entendi, terminou num
tal de Planck que não sei se é o Max.
Filosofia só é simples no
primeiro parágrafo. Daí em diante, tudo se turva. O que nos interessa é
que o movimento é uma ilusão; assim falaram Zenão e o motorista. E
também eu, ao fim da viagem.
- Pois então, se ainda estou no Tambiá, não seria justo que você me restituísse o que me vai ser cobrado no cartão?
O sujeito riu, deu-me duas tapinhas no joelho e explicou que não anda
com dinheiro, deixa tudo em casa; mas me deu duas soluções: ir ele
sacá-lo no banco ou ir eu buscá-lo em sua casa.
- Mas como chegar a um ou outro lugar, se o movimento...
E aqui ficamos emperrados.
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