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Só José



 Vovô se chamava apenas José. Um belo dia, a professora o chamou e disse que era hora de ter nome e sobrenome. Que tratasse com os pais, resolvesse logo o assunto.

Em casa, a mãe liquidou o grave problema em um piscar de olhos: José Gonçalves Braga. E vovô voltou à escola, sobrenome no bolso, lição da cartilha na ponta da língua.

- Mas assim não pode, falta o do seu pai.

E vovô viu que ter nome e sobrenome não era coisa fácil. Levou o recurso pra casa e ouviu o martelo da mãe: então fica sendo José (de) Epaminondas Braga. Assim foi feito.

Isso se passou quando vovô era criança, vivia com pais e irmão no sítio Picada e andava quilômetros de poeira e sol a pino pra ver o circo ou tomar a bênção ao coronel Peba.

Ser só José não era fácil e ele tratou de ser também o sobrenome. "Tão Brasil!" - diria o poeta. Venceu outros quilômetros, fez a vida em Campina e cuidou de lustrar o Braga.

Investigou a genealogia, arranjou um brasão e o pendurou na parede. E explicava com orgulho: o rei de Portugal concedeu ao meu bisavô, por serviços prestados à Coroa.

Nunca suspeitou de que a Coroa nem dono certo tinha quando Joaquim deixou Braga, nos anos 30 do século XIX, com uma mão na frente e outra atrás, em busca de comida.

Eu escutava histórias como essa em menino, de modo que, quando li o capítulo da genealogia dos Cubas nas Memórias Póstumas, senti que era dos meus que Machado ria. E ri junto.

Anos depois, fui a Cajazeiras com vovô e vi a casa do coronel, a estrada de poeira, a pobreza do Picada. Os quase 90 já tinham despido vovô das preocupações genealógicas.

E ali, sendo outra vez só José, ele pegou uma pedra, destacou o arame da cerca e me disse: vou lhe mostrar como eu fazia quando era menino. E riu o riso mais inesquecível da minha vida.

*



*

(crônica escrita para lembrar que no último dia 27 de março se completaram 4 anos que vovô passou a viver só nas reentrâncias da memória)

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