Vira e mexe, volta a notícia. Digo notícia, mas tem espírito de
profecia. Enfim. Lá para as bandas das ilhas Canárias, dorme um vulcão
de nome indecorável que, mais dia menos dia, vai acordar.
Quando isso acontecer, ondas viajarão a mil quilômetros por hora, dando voltas em torno de si mesmas, em direção ao nordeste do Brasil. Apesar de bem avisados, morreremos todos naufragados.
Gerusa, a sábia de Santa Teresinha, soube disso coisa de uns cinco anos atrás. Ligou de imediato para mim. Tremia de pânico. Que eu fizesse a mala e retornasse a Campina sem pestanejar.
Durante anos, minha mala esteve pronta de segunda a sexta e a permanência em João Pessoa foi uma questão de necessidade, não de pestanas. Mas não subi a serra por isso e aqui fui ficando.
Já estava esquecido da notícia profética quando, dia desses, lendo um perfil biográfico do padre Vieira, topei com a descrição por ele feita da aproximação da esquadra holandesa em 1624.
Terror - eis a palavra curta e grossa, ainda que gasta, para definir o que viu e relatou o então adolescente. O estrondo dos canhões, a fumaça da pólvora, o mar publicando fogo e engolindo Salvador.
Li isso, vislumbrei aquilo e mergulhei quatro séculos de profundidade. Ao retornar, saí de casa, transtornado. Corri à praia, icei as pestanas e singrei o quieto horizonte do Atlântico.
É bem verdade que, do lado de cá, as notícias de violência desencorajam. Um seqüestro aqui, dois assaltos ali, três homicídios acolá, além de estiagem, inflação e reforma trabalhista.
Mas nada que se compare ao cataclismo de uma invasão estrangeira e sua promessa de saque, estupro e servidão. Em 2016, não há quem nos queira invadir, concluí. E suspirei aliviado.
O olhar foi então se afastando da costa, perdendo-se além do horizonte, driblando arquipélagos África acima, até que topou com as Canárias e, como que de um sonho, acordou para a tormenta.
O tsunami! Lembrei. Saltei sobre a areia, girei em meu eixo, bati os calcanhares. Gerusa do céu! E desembestei da praia pra casa, esquecido dos saveiros que lá ficaram dormindo - lúcidos, indiferentes.
Quando isso acontecer, ondas viajarão a mil quilômetros por hora, dando voltas em torno de si mesmas, em direção ao nordeste do Brasil. Apesar de bem avisados, morreremos todos naufragados.
Gerusa, a sábia de Santa Teresinha, soube disso coisa de uns cinco anos atrás. Ligou de imediato para mim. Tremia de pânico. Que eu fizesse a mala e retornasse a Campina sem pestanejar.
Durante anos, minha mala esteve pronta de segunda a sexta e a permanência em João Pessoa foi uma questão de necessidade, não de pestanas. Mas não subi a serra por isso e aqui fui ficando.
Já estava esquecido da notícia profética quando, dia desses, lendo um perfil biográfico do padre Vieira, topei com a descrição por ele feita da aproximação da esquadra holandesa em 1624.
Terror - eis a palavra curta e grossa, ainda que gasta, para definir o que viu e relatou o então adolescente. O estrondo dos canhões, a fumaça da pólvora, o mar publicando fogo e engolindo Salvador.
Li isso, vislumbrei aquilo e mergulhei quatro séculos de profundidade. Ao retornar, saí de casa, transtornado. Corri à praia, icei as pestanas e singrei o quieto horizonte do Atlântico.
É bem verdade que, do lado de cá, as notícias de violência desencorajam. Um seqüestro aqui, dois assaltos ali, três homicídios acolá, além de estiagem, inflação e reforma trabalhista.
Mas nada que se compare ao cataclismo de uma invasão estrangeira e sua promessa de saque, estupro e servidão. Em 2016, não há quem nos queira invadir, concluí. E suspirei aliviado.
O olhar foi então se afastando da costa, perdendo-se além do horizonte, driblando arquipélagos África acima, até que topou com as Canárias e, como que de um sonho, acordou para a tormenta.
O tsunami! Lembrei. Saltei sobre a areia, girei em meu eixo, bati os calcanhares. Gerusa do céu! E desembestei da praia pra casa, esquecido dos saveiros que lá ficaram dormindo - lúcidos, indiferentes.
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Hassel Gerritsz vê a invasão holandesa de 1624.
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