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Uma matinê



Dia desses, eu estava em um sebo do Rio de Janeiro em busca de edições antigas do Memorial de Aires quando uma mulher entrou na loja e se dirigiu ao dono, no caixa.

 - O senhor compra livros usados?

- É disso que vivo.

- Estou perto do fim e não posso mais cuidar dos meus.

- Quantos?

- Vamos por partes. Primeiro, eu lhe trago uns quinze, depois outros quinze e assim por diante. Pode ser?

 - Claro.

A mulher ficou de voltar durante a semana, despediu-se e saiu engomando o corredor da galeria. Eu fiquei ali dentro, já esquecido do meu propósito, corroído de compaixão.

Imaginei a saída dos primeiros quinze soldados, quando os outros sabe-se lá quantos ainda estariam em número suficiente para disfarçar a ausência das primeiras baixas.

E me perguntei como ficaria a pobre velha quando só lhe restassem os últimos quinze, denunciando a dispensa do batalhão? Foi então que dei, sem querer, com um achado.

Dez livros de Josué Montello, autografados pelo autor para a mesma pessoa em diferentes datas, mal se apoiavam uns nos outros naquele exílio involuntário da biblioteca-mãe.

Quis resgatá-los todos, levá-los para casa e dar o cuidado que o dono ou seus filhos não mais puderam ou não quiseram continuar a dispensar. Mas havia a mala, o orçamento da viagem...

E escolhi apenas o Diário da Tarde, onde um Montello com apenas cinqüenta anos já se sentia como um sobrado velho cujas luzes iam se apagando uma a uma rumo à escuridão.

Livro na sacola, subi ao café, onde velhinhos curvados esperavam a matinê de um filme sobre os últimos anos de Stefan Zweig. Juntei-me a eles, que me olharam confusos.

E dali a quinze minutos fomos ver como um homem de outro mundo soube sair decentemente deste mundo quando não mais se sentiu parte dele.

*

Cena de Stefan Zweig: Adeus, Europa.


*

Comentários

  1. Ola Thiago. Graças a teu maravilhoso artigo sobre teus vizinhos alemães, estou conhecendo este blog interessantíssimo. Só um detalhe, é Stefaz Zweig e não Sweig.

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    Respostas
    1. Olá! Agradeço a visita e o comentário. Já corrigi o sobrenome do autor. Abraço e volte sempre. :D

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