Corria o ano de 1241. As disputas entre papas e imperadores do Sacro Império Romano-Germânico estavam aquecidas: Gregório IX excomungara Frederico II, que, por sua vez, marchou sobre Roma.
Durante o cerco, morreu o papa. O senador Orsini reuniu uma pequena guarda e mandou trancar os cardeais presentes em Roma com a missão de eleger um opositor inequívoco do Imperador.
O primeiro Conclave tinha apenas 10 cardeais e explica um traço importante da História do papado: a nacionalidade de um papa esteve ligada a alguns momentos geopolíticos da Igreja Católica.
Quando o Império Bizantino tornou-se hegemônico no Mediterrâneo, houve papas de origem grega. Quando os Staufer mandaram na península itálica, houve papas de origem alemã.
Quando a França tentou controlar o papado, houve franceses e muitos reinaram em Avignon. Então, reis europeus conseguiram conter os papas em Roma e eles passaram séculos sendo italianos.
No século XX, o Colégio Cardinalício internacionalizou-se crescentemente e a Igreja perdeu a importância na geopolítica europeia. E, assim, houve um polonês, um alemão e um argentino.
Prever a nacionalidade do novo papa é uma tarefa tão impossível quanto adivinhar, como jornais e apostadores tentam fazer, quem será o eleito. Mas é possível destacar dois detalhes da História.
Após as revoluções burgueses dos séculos XVIII e XIX, a Igreja Católica enfrentou o desafio de reposicionar-se em uma nova conjuntura. Não foi a primeira vez que o fez. E o fez com clareza.
Desde o século XIX, os Conclaves têm alternado papas de fechamento com papas de abertura, fazendo a Igreja acomodar-se aos novos tempos de um modo pendular muito característico.
Avançando sem parecer que muda, permanecendo igual sem parecer que engessa, assim a Igreja enfrentou de Napoleão Bonaparte ao Vatileaks, passando por Hitler e a contracultura.
O segundo detalhe é mais recente. Após a morte de João Paulo II, o caminho parecia claro: o papa defunto era um sucesso e seu mais próximo colaborador foi eleito em quatro breves escrutínios.
A continuidade, porém, esbarrou na reconfiguração dos tempos. Bento XVI vestiu-se com roupas e ritos do passado medieval, inadequadas para as turbulências internas e externas do presente.
Quando Bergoglio foi eleito, era evidente que os cardeais corrigiram a rota e fizeram o pêndulo mover-se, mais uma vez, para o caminho da abertura, já indicado pelo cardeal Martini em 2005.
Um Papa com o calor humano de Francisco, porém com mais clareza teológica, comentou o cardeal de Nova Iorque. Precisamos de tempo, porque mal nos conhecemos, falou o de Estocolmo.
E, assim, um dos colégios eleitorais mais velhos do mundo se reúne amanhã com o desafio de fazer uma Igreja nascida nas vísceras da Roma Antiga ajustar a rota, desta vez, nos bytes do mundo digital.
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