Já li de tudo um pouco: que 'Me Chame pelo Seu
Nome' é uma história de amor, um drama gay ou a celebração nostálgica
dos anos 80. Só não li o que o filme me pareceu.
Imaginem vocês.
A esposa de um professor universitário herda uma casa de campo na
Itália e o casal passa as férias de verão lá com o filho de 17 anos, um
aluno americano e amigos em trânsito.
E o que eles fazem?
Tomam banho de sol, lêem poesia, degustam frutas, tocam piano, passeiam
pelo campo, discutem filologia, mergulham no lago, catalogam achados
arqueológicos, fazem sexo.
Tudo se desenrola sem pressa e com
brio. A televisão é um detalhe no canto da parede, o telefone é um
aparelho preso à tomada e a cidade mais próxima está fechada para o
ócio.
O cenário político da Itália dos anos 80 vem à tona e causa
certa inquietação, mas o que empolga os convivas é a descoberta de
restos de estatuária antiga no mar ali perto.
Sim, é um filme que
fala de coisas antigas, tão antigas que, quando o jovem Elio descobre o
amor no corpo e na mente de Oliver, parece que estamos diante da
pederastia grega.
Mas também é um filme que fala de como essas
antiguidades persistem. Persistem no diálogo final do pai com o filho
sobre a amizade, que é uma tocante citação do mestre Montaigne.
Persistem na forma bela e elevada como os personagens da história se
conduzem, transitando entre a carne e o espírito com o suporte interior
das Artes, da História e da Filosofia.
Ou será que não persistem?
E o que persiste é o culto de certa tradição cultural, que o filme
celebra sem pudor e com vigor, para lembrar o que de melhor e mais
profundo a velha Europa continua a oferecer?
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