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Trinta linhas

Foi a determinação do coach que, dez anos atrás, veio dar um treinamento sobre como publicar matérias na internet. 


Mais de 30 linhas, ninguém lê! - martelo batido, ponta virada. E a Alta Administração satisfeita com os servidores treinados para os novos tempos.


Naquele tempo, eu escrevia crônicas de uma ou duas páginas e pequenos ensaios de três ou quatro. Publicava no blog e postava o link no Face.


Havia mais curtidas no Face que acessos ao blog. Como alguém pode curtir o que nem leu? Eu me aperreava, até que o coach veio com a solução.


Trinta linhas, em dez parágrafos de 3 linhas cada. Assim, eu faria do Face a coluna de jornal que não tive e, sem ultrapassar a medida, seria lido.


A coisa funcionou por um tempo, mas o tempo é cada vez mais curto e, a cada nova curtida, atropela-se a si mesmo. Insta, zap, tik tok, tic tac!


Quando dei por mim, estava diante de outro coach, garantindo que, agora, são trinta segundos. Mais de trinta segundos, ninguém vê!


Há dez anos, eu escrevia diretamente no Face as trinta linhas. Agora, escrevo no Canva, pensando no feed de alguém que vê tudo em um piscar de dedo.


Homero, que nem existiu, compôs oralmente duas epopeias, cada qual com mais de dez mil versos. E muita gente se reunia pra ver e ouvir aquilo.


Outros tempos, dirá você. Os mesmos de Arquíloco, respondo eu, a quem bastaram 4 versos e 28 palavras para sair do escudo e entrar na História.


Assim como os seres vivos, somos os escritores. Vamos adaptando agulhas e linhas às facilidades e adversidades de espaços e tempos.


Por que fazer isso? Talvez, você pergunte. E Catulo responde em 2 versos e 14 palavras: odeio e amo. Curto? Não sei. Só sei que é assim e me atormento.


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