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Dr. Virgílio, um humanista


Quando dr. Virgílio Brasileiro me viu pela primeira vez, eu estava chorando e ainda não era sequer capaz de enxergá-lo.

No dia seguinte, eu estava pálido e ele viu que minha primeira semana de vida seria uma batalha contra o tempo, pela sobrevivência.

Escapei graças a ele, aos meus pais e ao sangue de um produtor de cana e de um soldado do Exército. Talvez por isso eu seja um pacifista.

Nos anos seguintes, dr. Virgílio voltou a me ver tantas vezes quantas foram minhas febres, dores e fraquezas de menino não muito forte.

Depois fui crescendo e se deu a mudança: eu passei a ver dr. Virgílio. Ai, não. A coisa se deu ainda ali, no consultório da João Alves de Lira.

Fui levado por meu pai a uma consulta. Quando entramos na sala, dr. Virgílio estava lendo um livro de literatura. Sentamos. E ele disse:

- Epaminondas, um médico não pode entender apenas de Medicina.

E ele era curioso de muita coisa. Uma vez, eu o encontrei na rua e ele, que estava estudando russo, veio me dar um relatório das suas descobertas.

Em outra, topamos em um ônibus da Real. Ele tomou o livro que eu trazia, abriu na bibliografia e foi discorrendo sobre o que dali já tinha lido.

Quando chegamos a Campina, meu pai estava à espera. Levou-me para o destino e daí foi deixar dr. Virgílio em casa. Duas horas depois me ligou:

- Agora é que a conversa acabou.

Dr. Virgílio esteve presente no lançamento do meu primeiro livro. Queria receber o autógrafo e me dar as impressões sobre o que já lera.

Mais que isso, dr. Virgílio está presente na minha memória afetiva como aquele erudito de um mundo antigo que parece ameaçado. 

De sua linhagem, conheci médicos como dr. Everaldo Lopes e dr. Gildo Rabello. Deste último, leitor voraz de Literatura e História, fui íntimo.

São profissionais de saberes técnicos que nos lembram que a técnica não resume o ser humano e só vai além quem busca as Humanidades.

Hoje, a notícia da morte de dr. Virgílio Brasileiro entristeceu gerações de pais e ex-crianças campineses. Que sua memória repouse na merecida paz.

E que sua morte não venha também com o perecimento desta linhagem de humanistas.

*

Dr.Antônio Virgílio Brasileiro da Silva


*

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