O século passado estava nas últimas
quando fiz minha primeira e única viagem à Alemanha. Durou coisa de umas
três horas e o trajeto foi pouco mais que um pulada de muro.
Tudo bem, até que vi demais Jornada nas Estrelas na extinta Manchete,
mas não é de teletransporte que estou delirando. O negócio é que meus
vizinhos do fundo eram alemães.
Chegaram ali pouco depois que minha família e eu nos mudamos pra casa da
Bela Vista e, durante um bom tempo, não passamos de estranhos dividindo
o muro do quintal.
Até que um belo dia Ulrich esteve lá em casa para tratar não sei de que e - bum! A imagem daquele homem esguio, que falava um idioma exótico, entrou-me na fantasia de menino.
Dali a um tempo, minha mãe e eu topamos com ele e a esposa no Iguatemi. Conversa vai, conversa vem, Gabriele nos convidou para um almoço em sua casa, dia tal, hora tal.
Foi aí que se deu a viagem. Fomos à Alemanha dando a volta no quarteirão e entramos no país atravessando a Floresta Negra no jardim de árvores frondosas dos vizinhos.
A sala da casa me imprimiu no espírito uma impressão que nunca se apagou. Estreita e comprida, ocupava a metade sul do imóvel. Livros forravam as paredes de cima a baixo.
Numa das pontas, um piano aberto com a partitura de uma sonata ainda esfriando e, na outra, lareira, poltronas e sofás em que mal nos sentamos porque o almoço foi logo servido.
Comi pratos de nome impronunciável, ouvi relatos de um périplo de Stuttgart à Paraíba e saboreei um strudel que fez serem ruins todos os outros que depois disso vim a provar.
O almoço acabou, o século findou, os anos passaram e nosso contato ficou apenas nas topadas de rua, quando tento lhes dar aquele abraço latino de dar a volta ao mundo
e eles recuam dois ou três passinhos discretos para estender a mão, polidamente germânica, e perguntar pelo Mozart que nunca mais ouviram saltitando do meu quarto.
Dia desses, eu lia uma página triste de Tchekhov na varanda dos meus pais, quando ouvi, vindo de lá dos alemães, um minueto de Bach tocado por um violino meio que iniciante.
Corri ao pé do muro no quintal, senti certo cheiro inconfundível de strudel e me dei conta de que aquele almoço de fim de século anda precisando de atualização.
Até que um belo dia Ulrich esteve lá em casa para tratar não sei de que e - bum! A imagem daquele homem esguio, que falava um idioma exótico, entrou-me na fantasia de menino.
Dali a um tempo, minha mãe e eu topamos com ele e a esposa no Iguatemi. Conversa vai, conversa vem, Gabriele nos convidou para um almoço em sua casa, dia tal, hora tal.
Foi aí que se deu a viagem. Fomos à Alemanha dando a volta no quarteirão e entramos no país atravessando a Floresta Negra no jardim de árvores frondosas dos vizinhos.
A sala da casa me imprimiu no espírito uma impressão que nunca se apagou. Estreita e comprida, ocupava a metade sul do imóvel. Livros forravam as paredes de cima a baixo.
Numa das pontas, um piano aberto com a partitura de uma sonata ainda esfriando e, na outra, lareira, poltronas e sofás em que mal nos sentamos porque o almoço foi logo servido.
Comi pratos de nome impronunciável, ouvi relatos de um périplo de Stuttgart à Paraíba e saboreei um strudel que fez serem ruins todos os outros que depois disso vim a provar.
O almoço acabou, o século findou, os anos passaram e nosso contato ficou apenas nas topadas de rua, quando tento lhes dar aquele abraço latino de dar a volta ao mundo
e eles recuam dois ou três passinhos discretos para estender a mão, polidamente germânica, e perguntar pelo Mozart que nunca mais ouviram saltitando do meu quarto.
Dia desses, eu lia uma página triste de Tchekhov na varanda dos meus pais, quando ouvi, vindo de lá dos alemães, um minueto de Bach tocado por um violino meio que iniciante.
Corri ao pé do muro no quintal, senti certo cheiro inconfundível de strudel e me dei conta de que aquele almoço de fim de século anda precisando de atualização.
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