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Uma lição em 89


1989 foi aquele memorável ano em que 22 pessoas disputaram a Presidência do Brasil, 3 milhões de berlinenses derrubaram um muro e meia dúzia de pupilos foi alfabetizada por dona Lourdes Pedrosa.

Eu era um dos pupilos e lembro muito bem como os fatos históricos se transformavam em fatos escolares no pequeno complexo de sala, pátio e biblioteca nos fundos da casa da professora.

A meninada havia organizado um exército para comandar o pátio. Quando os ventos da mudança sopraram no país e no mundo, uma revolução derrubou a junta militar e proclamou a democracia.

Major na junta, fui eleito vice-prefeito em 1990 e, no ano seguinte, prefeito do pátio. Quando Collor caiu, os três vereadores decidiram que era hora de agir e votaram meu impeachment. 

Mas era de 1989 mesmo que eu queria falar. Naquele ano, outro fato fundamental se deu entre a meninada do Instituto Pedrosa: descobrimos que Papai Noel não existe, mas as classes sim.

É que as férias de verão vinham se aproximando e nós conversávamos sobre o que pedir ao bom velhinho quando Alan tomou a palavra corajosamente e lançou uma bomba de hidrogênio:

- Vocês ficam aí falando besteira e não sabem que isso não existe. Só ganha presente de Papai Noel quem tem pai rico. Como o meu é pobre, eu não ganho é nada!

Fiquei tão ofendido pela confrontação ao doce dogma natalino que prometi não dormir na madrugada de 25 de dezembro, flagrar Papai Noel e esfregar a verdade na cara de Alan.

Bom, o que aconteceu vocês podem supor. Não dormi na noite H e, em vez de ver o Papai Noel entrar pela janela, senti o meu pai esfregar a verdade ao pé da cama. Fiquei humilhado.

Quando as aulas voltaram, admiti a derrota a Alan, que estufou o peito, ergueu o queixo e, em triunfo, lacrou: 

- Eu não disse?

*


*

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