A insônia tem seus ritos e não sou eu, que tenho lá
uma queda por rituais, quem vai ludibriá-los. A coisa toda começa antes
mesmo de o sujeito tomar dois dedos de água e ir pra cama.
Não
sei que comichão vai invadindo o corpo e fazendo o inocente pensar em
tudo o que pode distrai-lo do sono: a fome do cão, o trabalho por
concluir, as camisas a passar...
Mas a pessoa sabe que está saciada, que o trabalho pode esperar pela
aurora e que as camisas estão todas as noites por passar. Toma, então, a
decisão: bebe água e se deita.
Por quê? Para quê? São onze e meia, quase doze horas da noite e o camarada sente que já passa da hora de dormir, por isso teima, e lima, e sofre, e sua, mas a pepita não vem.
Nem virá. O que vem é a consciência de que não se vai dormir. E logo em seguida, ai meus deuses!, a percepção de por que não se vai dormir. Eis o ponto crucial da insônia.
É preciso aceitar sua chegada, é preciso aceitar seu motivo. E deixar que ele salte do coração e seja bombeado para a consciência com a resignação de quem marcha para a forca.
Uma dor de amor, um receio político, uma trapalhada no escritório, um dito infeliz de quinze anos passados, qualquer bobice se instala no peito e começa a girar com os ponteiros.
O relógio do quarto dá corda, o da sala dá o impulso e o da cozinha sopra o vento que atira as horas e as dores na espiral, que começa mansinha e termina em redemoinho.
O sujeito ainda tenta um zap pro analista (ele dorme), duas pílulas na farmacinha (ela falta) ou três pulinhos na piscina do prédio (o porteiro mostra a multa no regimento interno).
Não há escapatória. Tudo o que há é a cama, acolhedora como uma mãe que tudo escuta e guarda no coração. Ela estira os travesseiros e diz: - vem, deita, fala, remói, chora.
E a pessoa se entrega, primeiro pesada, depois desarmada, por fim pacificada, de tal forma que nem sente mais o varejo do tempo, em seu passo lento e relento, quase parando.
Até que um passarinho pia, outro faz eco, o terceiro acorda e o milenar concerto para flautas abre o expediente do dia. Um portão se abre e uma moto rasga o protocolo da orquestra.
Vem a luz.
O corpo estremece, as pálpebras se contorcem, passa o carro de lixo. E de alguma casa, um vizinho velho sintoniza a rádio ou, ainda melhor, liga a vitrola:
o sol colorindo / e a natureza sorrindo / tingindo / tingindo...
Por quê? Para quê? São onze e meia, quase doze horas da noite e o camarada sente que já passa da hora de dormir, por isso teima, e lima, e sofre, e sua, mas a pepita não vem.
Nem virá. O que vem é a consciência de que não se vai dormir. E logo em seguida, ai meus deuses!, a percepção de por que não se vai dormir. Eis o ponto crucial da insônia.
É preciso aceitar sua chegada, é preciso aceitar seu motivo. E deixar que ele salte do coração e seja bombeado para a consciência com a resignação de quem marcha para a forca.
Uma dor de amor, um receio político, uma trapalhada no escritório, um dito infeliz de quinze anos passados, qualquer bobice se instala no peito e começa a girar com os ponteiros.
O relógio do quarto dá corda, o da sala dá o impulso e o da cozinha sopra o vento que atira as horas e as dores na espiral, que começa mansinha e termina em redemoinho.
O sujeito ainda tenta um zap pro analista (ele dorme), duas pílulas na farmacinha (ela falta) ou três pulinhos na piscina do prédio (o porteiro mostra a multa no regimento interno).
Não há escapatória. Tudo o que há é a cama, acolhedora como uma mãe que tudo escuta e guarda no coração. Ela estira os travesseiros e diz: - vem, deita, fala, remói, chora.
E a pessoa se entrega, primeiro pesada, depois desarmada, por fim pacificada, de tal forma que nem sente mais o varejo do tempo, em seu passo lento e relento, quase parando.
Até que um passarinho pia, outro faz eco, o terceiro acorda e o milenar concerto para flautas abre o expediente do dia. Um portão se abre e uma moto rasga o protocolo da orquestra.
Vem a luz.
O corpo estremece, as pálpebras se contorcem, passa o carro de lixo. E de alguma casa, um vizinho velho sintoniza a rádio ou, ainda melhor, liga a vitrola:
o sol colorindo / e a natureza sorrindo / tingindo / tingindo...
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