Fuga de prisão é coisa séria. Que o diga a fuga recente da penitenciária de João Pessoa.
A segurança era máxima, mas a porta foi pelos ares, um PM morreu e uma centena deu no pé com dificuldade mínima.
Mal começou a caçada, veio o pânico no zap. Tiros em Manaíra, captura no Bessa, carreira no Altiplano.
Coisa de cinema.
Ou coisa de infância. Quando eu era menino, Pablo Escobar virou fugitivo da Interpol e ganhou (ainda mais) os jornais.
Naquele tempo, o terror de quem andava nas ruas de Campina Grande era dar com um trombadinha na esquina.
O que já era terror suficiente, mas não passava de um terror local, sem o glamour da fuga internacional.
Já Pablo Escobar, embora fugisse dentro de casa mesmo, era um caso de mobilizar polícias e diplomacias.
E dava na tevê, não em patrulha policial, mas em horário nobre, com Cid Moreira, Boris Casoy, Lillian Witte Fibe.
Eu acompanhava aquilo tudo e tremia.
E se ele tomasse um avião, entrasse no Brasil sem ser visto, viajasse pela Transamazônica e viesse bater na Paraíba?!
O veraneio de 93 foi um delírio só.
A qualquer momento, o carro de Escobar parava em Cabedelo e ele saltava o muro da nossa casa de praia.
- Deixe de ser besta, menino.
Mas menino não é besta, é fantasioso, o que é bem ou nem tão diferente. A fantasia quase durou de Carnaval a Carnaval.
Na prova de Geografia, no gato que madrugava no telhado de casa, na esquina fortuita. Em todo canto, eu via Escobar.
Fosse um trombadinha, eu fugia. Mas Escobar? Eu enfrentava com a espada e os poderes de Grayskull.
E suava, e gozava, e tremia.
Até que o ano letivo acabou, as férias começaram, a tevê podia ficar ligada a tarde inteira e de repente:
TAN TAN-TAN TAN TAN TAN-TAN-TAN-TAN TAN TAN-TAN TAN TAN TAN-TAN-TAN-TAN TAAN TAAAANNNN
E ATENÇÃO! O NARCOTRAFICANTE PABLO ESCOBAR ACABA DE SER MORTO EM MEDELLÍN.
Os cristãos que me lêem hão de compreender o alívio no peito da criança. Meu pai precisava saber. Corri ao telefone.
- Painho, acabou, acabou! Mataram Escobar!
A tevê exibia do alto de um helicóptero as imagens do corpo no telhado. Ironias, supremas ironias da vida. Meu pai ralhou:
- Não se comemora a morte de um homem, meu filho. Por pior que ele seja, é um homem. Vá brincar.
E eu fui.
Meio alegre, meio triste.
As férias mal começavam, o peru de Natal ainda vivia e o veraneio não traria Pablo Escobar, num chevette branco, até Cabedelo.
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