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Virando a folha



Estava em casa, fazendo o almoço, quando o celular tocou. Vi o 011 na tela e me preparei para a moça do cartão de crédito ou o rapaz do novo plano Vivo.

Atendi pronto pra iniciar o Quebra-Quilos. Por que perder tanto tempo com quem não quer mais minutos ou só aceita outro cartão sob tortura?! Mas a voz do outro lado anunciou: 

- Aqui é do Datafolha...

Durante anos, via o 011 surgir na tela e corria para atender na esperança de que seria Luiz Schwarcz oferecendo contrato e amizade. Alô, Thiago, li seu livro etc. e tal. 

Até que me conformei: só a moça do cartão e o rapaz da Vivo se interessam por mim. E passei a papear com uma e outro. Mas boa vontade é coisa de que não se deve abusar.

De modo que a moça do Datafolha me apanhou com os cachorros na ponta língua. E me desarmou fácil, fácil. Queria minha opinião sobre a Folha de S. Paulo. Vibrei de emoção.

Assim como Carlos Heitor Cony foi o cronista que passou de pai pra filho, a Folha foi a leitura de jornal que assimilei do meu pai. Durante anos, lemos a Folha como que em dupla.

Sábado e domingo. Painho chegava da banca de Orlando com o jornal. Revezávamos a leitura dos cadernos e íamos comentando isso e aquilo como se fosse nosso futebol.

Por aí vocês entendem a emoção de, pela primeira vez, falar à Folha o que penso, sinto por ela. Contei tudinho. Da banca de Orlando à morte de Cony, que nos abalou profundamente.

E lamentei. A assinatura do meu pai foi cancelada, porque o jornal não chega mais em versão impressa a Campina Grande. Eu ainda me viro com a internet, mas ele...

A moça anotou, ou fingiu anotar. Só mais uma coisa, pedi. Tudo bem que se lê na internet, mas a internet mudou o texto, a coisa ficou mais rala, ligeira, tola, superficial. 

Antigamente, eu lia a Ilustrada do sábado e terminava humilhado, porque aquilo me ampliava a visão da ignorância. Hoje, passo a vista nas abas e nada daquilo me ensina mais.

- Muito bem, senhor, passarei suas observações...

Isso foi há coisa de uns seis meses.

Ontem, saí à banca do retão de Manaíra e, depois de um bom tempo, comprei a Folha. Primeiro caderno, segundo, Ilustrada... em quinze minutos, senti a notícia dormida.

E, com o coração sangrando pela garganta, abandonei o volume emagrecido na padaria.

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