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À espera do cônsul

O melhor emprego do mundo é o de cônsul da Suíça em Olinda. Quem me assegurou isso foi um daqueles artistas que andam pela cidade velha vendendo serigrafias coletivas.

Vi o dedo do homem apontado para o sobrado que abriga o consulado da Suíça, pensei nos graves problemas de política internacional que as janelas encobrem e concordei com cabeça de lagartixa.

Chegados aos Quatro Cantos, vi um sobrado à venda e pensei que, se a Suíça tem lá um consulado, Campina Grande já merece o seu. A idéia me caiu como semente. 

Então, com a desculpa de economizar dinheiro para negócios diplomáticos futuros, dispensei as serigrafias do bom mercador e tomei o caminho da praça João Alfredo.

Ia descendo a Prudente de Moraes quando outra placa - dessa vez, por conta própria - me chamou a atenção. O consulado do Uruguai. Eis aí o verdadeiro bom emprego.

O sobrado da Suíça é tímido, quase aberto para a rua e não deixa ao cônsul outra saída, quando chega o Carnaval, senão cair na folia ou tomar o avião e passar frio em Berna.

Já o casarão do Uruguai é tão vasto que, entrando pelo portão gradeado, a vista se perde pelo jardim e não sabe se encontra o caminho de volta, ou se fica por lá de larica e cuia.

Sem falar que a Suíça tem lá suas lavanderias de bolso, que sempre trazem um ou outro dissabor às autoridades. Mas o que no mundo desassossegaria um cônsul uruguaio das oito às dezoito?

Quis voltar e corrigir o artista, mas a fome apertou, a fadiga pesou e o sol bateu o martelo. Desci até a praça, tomei assento num café-galeria e deixei a mente singrar naquelas águas mansas.

O que faria o cônsul? Leria de segunda a sexta e escreveria nos fins de semana? Faria a sesta na hora do expediente e daria o expediente na hora da sesta? Ou seria tão inútil que estaria vago o posto?

- Posso ajudá-lo?

A voz soou no bom e velho portunhol. Peguei o cardápio e perguntei se o homem era espanhol. Não, uruguaio. Tão uruguaio quanto o cônsul ali em cima?

- Rodrigo? Mi amigo! Viene aquí todos los dias.

- Já veio hoje?

- Não, mas chega já.

Pedi o prato da casa, estirei as pernas numa cadeira e, como quem se prepara para assinar um complicadíssimo tratado de vida ou morte, guerra ou paz, esperei o cônsul chegar.

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