Não sei ao certo como e quando a gente começa a
amar uma cidade. Sei que, no começo de tudo, odiei João Pessoa como um
degredado odeia a terra para onde é despachado.
E aqui vivi,
durante anos, dentro de uma maleta de três palmos cúbicos, pronto para
sacudir a poeira dos sapatos a qualquer milésimo de segundo e correr
para o perdido lar.
Era o banzo
arrochando o peito e o calor soprando os fornos do Inferno no rosto. Era
o cativeiro burocrático prendendo os passos e a casa de vovó chamando
de volta à liberdade.
Até que um dia descobri uma pracinha de
Manaíra e botei na cabeça que, se eu morasse lá, seria menos infeliz.
Demorou quase sete anos, mas me mudei pra cá. E sabem que mais?
No dia em que entregou as chaves do apartamento, o senhorio me olhou nos
olhos, estendeu a mão e disse apenas: Seja feliz. É um aluguel que até
hoje pago sorrindo.
Aí foi que alguma coisa aconteceu. O calor, o
cativeiro e a saudade não se foram, continuam aí no meu juízo. Mas, de
repente, o ódio baixou o facho e a cidade foi se revelando.
Sarau
de Suzy aqui, livraria do Luiz ali, sabadinho bom acolá. Rodas de
samba, concertos sinfônicos, cine Bangüê. Fui bater nas Trincheiras,
vadiei pelo Varadouro, só pra constar.
Numa bela noite de
Manaíra, saí do armário. Digo bela só pra soar cafona como um poeta
romântico, mas foi curta e grossa mesmo. Noutra, vi sozinho uma chuva de
asteróides.
Quando dei por mim, era um homem completamente
diverso do que aqui chegou, e a cidade tinha parte no cartório. Passei a
chamá-la, na intimidade e com afeto, de Frederica.
Subi até a
Guia, desci a ladeira da Borborema (dentro e fora do Carnaval), levei
corrida de cachorro, tomei uma lapada na cachaçaria Filipéia, comi doces
na casa Sanhauá.
Outro dia, estava farto, cansado. De mim e da
vida, dos pequenos fracassos cotidianos. Fui até a Budega, troquei seis
palavras com Hygia, pedi o caldo de jerimum com queijo.
Tentavam
botar uma radiola de ficha pra tocar. Mais de cem discos prometidos. Mas
a bicha enguiçou da viagem. Esforço vão. Não pegou. Ou pegou. De
repente, por três minutinhos:
Negue seu amor, seu carinho / Diga
que você já me esqueceu / Pise, machucando com jeitinho / Este coração
que ainda é seu / Diga que meu pranto é covardia...
A voz era a de Nelson Gonçalves, mas a canção... era uma das canções de ninar que o meu pai cantava...
Sem aviso prévio, foi o lar que então voltou e me alcançou numa bela
noite de Frederica. E ali, rapidinho, fui tão pleno quanto o menino
antigo, embalado na rede pela ternura do pai.
*
*

Lindo!! Incrível como Nelson Gonçalves marca gerações. Meu pai e minha tia cantam, até hoje. Profundamente afetiva essa memória despontada! :) :*
ResponderExcluirGrato pela leitura, Breno. :D
ResponderExcluir