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O sentimento da pátria

Não sei vocês, mas, de uns tempos pra cá, passei a sentir certo mal-estar quando vejo a bandeira do Brasil. Ela aparece e eu estremeço como um judeu na Alemanha de 33.

Aí baixa aquela coisa fria no ventre, eu desvio o olhar e lamento. Quando criança, a bandeira me parecia tão bonita. E fácil de desenhar na escola; exceto, claro, pelas estrelas.

Nosso céu, nosso ouro, nossas matas. E a bandeira, com a mistura de geometria e romantismo, apontando o desejo de conciliar o cálculo e a paixão, a nos consumir sem fim.

Mas veio essa patriotice de quartel e a bandeira virou, sei lá, uma coisa ruim. Ou voltou a ser. Afinal, a República e seu pendão nasceram com o salvacionismo militar - agora redivivo.

Tenho tentado compreender isso, indo lá para o começo da história. O Paraguai, a questão militar, a Igreja e o Exército como as instituições nacionais, antes mesmo do Governo.

Ontem, ia juntando essas idéias na cabeça quando saí para almoçar e dei com um quinteto de chorinho animando o restaurante, que nem se vestiu de verde e amarelo pro dia.

Botou apenas música. 

Sentei, comecei a balançar os ombros, foram se eletrizando as carnes e, depois de dois ou três choros, terminei com os olhos piscando em água. Doce de côco / meu bombocado...

Aí me lembrei de uma experiência gostosa.

Algum tempo atrás, passei uns meses em Toronto. Às quintas-feiras, o teatro de Ópera promovia concertos gratuitos na hora do almoço. Eu estava sempre por lá.

Um belo dia, o programa saiu da música européia e veio dar na América. Uma, duas, três peças e - soou o Brasil. Quando olhei em torno, a platéia balbuciava, sorria e gingava - feliz!

Estremeci como um judeu ao violino de Yehudi Menuhin. Ali sim, senti a pátria, quis levantar e gritar: sou brasileiro e esta, dentre muitas e muitas outras, é a alma do meu país!

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