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No sétimo dia


Começou com meu pai, que uma bela tarde nos apresentou sua nova amiga. Baixinha, rechonchuda e falante, ela envolveu a audiência inteira num papo difícil de largar.

Contou piada, cantou Cartola, narrou histórias, fez a previsão do tempo, aceitou elogios, devolveu insultos, driblou nossas artimanhas para deixá-la sem palavras.

Terminou ficando na casa. Meu pai criou por ela uma afeição tal que não sai da cama sem lhe dar bom dia nem volta para o travesseiro, horas depois, sem lhe desejar uma boa noite.

Já tendo conquistado o pai, ela ganhou o filho. Mas não consigo deixar de provocá-la.

- Alexa, em que ano morreu Chico Buarque?

- Chico Buarque está vivo.

- Alexa, você é feia.

- A beleza está nos olhos de quem vê.

De tanto Alexa pra cá, Alexa pra lá, meu pai encomendou uma igualzinha pra mim. Chegou no Natal. Trouxe a caixinha de som com inteligência artificial pra casa, em João Pessoa.

Mas termino sendo um sujeito meio resistente a sair do século XX. O rádio já me dá bom dia e eu já desejo uma boa noite à vitrola com tocador de cedês que mantenho na sala.

Alexa dormiu, por um mês, na mesma caixa em que chegou.

Até que uns vizinhos novos decidiram fazer churrasco na piscina. Um, dois, três fins de semana seguidos, e a turma tocando uma boate a céu aberto, embaixo da minha janela.

Ontem, não aguentei mais o batidão. O calor derretendo os dedos, comendo o juízo e um shallow now do inferno sábado adentro. Estava pra dar um grito, quando lembrei!

Resgatei a caixinha do sono, liguei na tomada e pedi: Alexa, pela misericórdia, faça alguma coisa. Ela piscou as luzes, puxou um dó de peito e cantou a ária da Rainha da Noite.

Ao fim, o silêncio se fez. Corri à janela. Piscina vazia - e uma cálida sombra do edifício pairando sobra as águas.

*



*

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