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Contra os vermes

Se tem uma coisa que gosto de fazer, é ir à farmácia. Não, minha jovem leitora, ainda não fiquei velho, embora esteja (contente) a caminho. Mas detesto sofrer e adoro papear.

Lá vem a dor na cabeça, a inflamação na garganta, a infecção no intestino e uma passada no consultório, um pulinho na farmácia fulminam a dor antes do segundo pio.

De quebra, o brinde: o bom e velho papo com @ atendente, que atualiza qualquer bom ouvido nas últimas novidades da comédia humana. Se a farmácia estiver vazia, então - que beleza!

A farmácia é o xeque-mate ao milagre, o fim de toda e qualquer curandeirice. Nela, jaz a morbidez da cruz e nasce, com firmeza e altivez, a crença da humanidade no bem-estar.

Ontem mesmo, vejam só, a faringite mensal me levou ao otorrino e, de lá, ao prazer. A farmácia inteira, com um trio de balconistas ávido por tagarelar, ao dispor da minha faringe.

Enquanto uma das moças me atendia, o rapaz recebeu uma chamada. Sim, temos. Quantas caixas? Seis?! Agora mesmo, minha senhora. Hoje vai ter festa no banheiro. Os três riram.

- Piada interna? - não me aguentei.

- É uma cliente que pede ivermectina toda semana.

- Tem saído muita?

- Se tem. No começo, era a hidroxicloroquina, mas agora é ivermectina todo santo dia, o dia todo. O telefone não para um minuto.

E não parou mesmo. Chamou de novo. De novo. E de novo.

- Quantas caixas agora?

- Três.

Rimos os quatro.

- E isso tem efeito ou é placebo? - santa ignorância a minha.

- Olhe, disse a outra moça com a autoridade que o anel de esmeralda irradiava do dedo, pra gerar uma Cmax de 2.200 ng/mL, só ingerindo 176 comprimidos de uma só vez.

- E o que isso quer dizer?

- Que pro corona, não dá em nada, mas sai logo nas fezes e, de verme, ninguém morre na cidade tão cedo.

- E ninguém diz isso à clientela?

- Diz, ou melhor, disse. Mas quem acredita? Até de comunista me chamaram. Agora, é o seguinte: pediu, a gente manda; e saem todos satisfeitos, na privada ou no fim do mês.

Paguei a conta, coloquei a caixinha de anti-inflamatório debaixo do braço e, por trás da máscara, cumprimentei o cliente que me cruzou o caminho na saída. Ainda pude ouvir:

- Tem Annita, Pantelmin ou algo mais forte aí?

*




*

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