O Carnaval passou, por isso estamos em boa hora de evocá-lo. Aliás, creio que foi Maiakovski quem afirmou: só se deve tratar de um tema quando já vai longe o tempo que o gerou.
Mas não me refiro ao Carnaval de terça, que ainda tem álcool no sangue. Falo de quando o lepo-lepo não era canção de ninar em Cabedelo e tia Mércia nos colocava para dormir ao som do mar e de Lua Bonita.
Que come dorme faz tudo, dentro do teu coração?"
Por sinal, em 1990, o Carnaval era tia Mércia, que liberava o pó de Maizena, extraviava os ovos da dispensa e liderava a folia do mela-mela. Isso se dava no Poço, muito antes do asfalto na Vitorino Cardoso.
E se deu muito mais.
Foi por essa época que titia voltou de uma temporada fora do país, trazendo idéias avançadas. No Carnaval, vestiu o marido de mulher: saia, blusinha, saltão, chapéu, pintura no rosto e argolas nas orelhas.
Tudo mascarado, ela saiu pela vizinhança, arrastando a cauda de sobrinhos, para apresentar a recente amiga estrangeira que viera ao Brasil trazendo notícias de França.
E ria um aqui, gargalhava outro acolá, até que uma senhora, seis casas depois, caiu no conto da francesa. E se seguiu um papo animado, com tradução instantânea, carregada na pimenta e no destempero.
Quando chegou o reconhecimento, a maisena saiu pelos poros.
Alguns anos depois, a escola em que eu estudava organizou uma trocadilha no São João e eu fui escalado para dançar vestido de freira. Lívia, a doce Lívia, seria o meu padre. Em casa, revelei o plano.
- Isso não é coisa de macho! - veio a censura.
- E tio Zé naquele Carnaval? - sobreveio isso.
- Mas isso foi coisa de Carnaval. - restaurou-se o equilíbrio.
Foi assim que recebi a lição: certas fantasias não podem sair à rua o ano inteiro. De lá pra cá, muita coisa mudou na urbe e no orbe; mas nem tudo para pior: as fantasias já estão sendo liberadas além de fevereiro.
(Esta crônica foi publicada em fevereiro de 2015 no Facebook.)
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