Hoje cedo, quando acordei, minha irmã lembrou ao telefone os velhos tempos em que arrancávamos folhas de palmeira do jardim para ir à Missa de Ramos. Agitar aquelas folhas era uma diversão.
Boas lembranças. Melhores ainda porque me trazem outras, meio pessoais, meio históricas. Sou um apóstata que manteve certo fascínio pelo abandonado credo. E o fascínio tem suas causas.
Adoro observar, por exemplo, como o catolicismo romano preservou, em seus códigos e rituais, elementos da antiga cultura greco-romana e os trouxe, metamorfoseados, até os nossos dias.
Vejam o caso do Domingo de Ramos.
Os quatro evangelhos narram com variações a entrada de Jesus em Jerusalém. Mateus fala em vestes e ramos de árvores espalhados pelo chão; Marcos, em vestes e ramos apanhados no campo.
Lucas, por sua vez, menciona apenas as vestes. E João é o único que dá nome ao tronco: eram ramos de palmeira. Mas havia palmeiras em Jerusalém? - perguntam-se alguns estudiosos.
O próprio João conta que Jesus encontrou um jumentinho e nele montou para sua entrada (messiânica, ressaltam as traduções religiosas) em Jerusalém, a fim de cumprir uma profecia.
Marcos, Mateus e Lucas contam que Jesus mandou os discípulos irem buscar o jumentinho e fornecem um detalhe geográfico: o grupo estava reunido em Betfagé, no Monte das Oliveiras.
Talvez esse detalhe geográfico tenha originado a tradição que faz, até hoje, católicos cantarem: os filhos dos hebreus / com ramos de oliveira / foram ao encontro do Senhor cantando / Hosana!
Isso fecharia a questão, mas gosto de abri-la.
Penso sempre que os livros do Novo Testamento foram escritos em grego para um público de formação greco-romana. Um público habituado a entradas triunfais de generais coroados de louros.
A coroa de louros tem origem no mito de Dafne, transformada em loureiro pelo pai para escapar da perseguição (importunação, diríamos hoje) sexual de Apolo. Ironia: Apolo era fã de loureiro!
Apolo cortou folhas da metamorfoseada Dafne e fez para si uma coroa, que se tornou seu atributo. Apolo, belo e pastoral, deus da adivinhação e da música, mais tarde ligado aos mistérios órficos.
Dia desses, descobri que a antiga Atenas substituiu o loureiro pela oliveira na coroa com que distinguia os campeões olímpicos. Mais ainda, estremeci de emoção quando li a seguinte passagem
Ambas agitavam ramos de oliveira (ramos oleagineos utraeque quatientes)
em O asno de ouro, romance do século II d.C. A passagem ocorre durante o falso funeral em um ritual dedicado ao deus Riso. As mulheres agitavam os ramos para fazer uma súplica ao magistrado.
Ramo de oliveira, insígnia de suplicantes e embaixadores no mundo antigo. Coroa de oliveira, prêmio de atletas, triunfo de generais, atributo de um deus ligado ao mistério da vida eterna.
Tudo isso não passa, talvez, de fragmentos que a memória vai recolhendo para uma relação mais observacional que causal. Talvez. Mas não deixa de emocionar a observação destas equivalências.

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