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História, 31 de março de 2021.

Brasileiros,


Há quase 25 anos tenho acompanhado de cá as notícias daí, com as dificuldades que minha atual posição impõe. As ondas chegam aqui com tantas interferências que não sei se as escuto ou deliro.

Se bem escutei, estou a par de que há 2 anos governa o país o senhor Jair Bolsonaro, capitão insubordinado que, não mais podendo ser o mau militar que era, tornou-se péssimo deputado.

Em meus anos de presidência, atravessei noites em claro e dias de pesadelo, equilibrando-me entre o movimento democrático e a arena de perseguição, tortura e morte, aberta pela anarquia militar.

Fiz o que pude para conter a tigrada e devolver os militares aos quartéis, certo de que só a promoção do desenvolvimento nacional cortaria em definitivo os laços entre a política e as Forças Armadas.

Não foi fácil. Na véspera da demissão do general Ednardo d'Ávila, passei a noite em claro. Em outubro de 1977, para demitir o general Sylvio Frota, precisei contar com um revólver na gaveta.

A anarquia era tamanha que, segundo o Figueiredo apurou no SNI, a tigrada chegou a tramar um atentado contra minha vida, explodindo o helicóptero presidencial com um tiro de bazuca.

Não foi fácil, mas eu consegui enquadrar a insubordinação, revogar o AI-5 e promover a abertura. Não direi que a República disso surgida é perfeita, mas farei minhas as palavras do Castello Branco:

“Não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos antidemocráticos. Destinam-se a garantir os Poderes constitucionais e a sua coexistência.” - março de 1964.

Brasileiros, se bem escuto de cá as notícias que daí chegam, o senhor Jair Bolsonaro não pretende outra coisa senão revisar a História e reabilitar as práticas daninhas que eu logrei extirpar.

Mau militar, péssimo deputado, presidente inadjetivável. Incapaz de comandar o país contra um inimigo que já ceifou mais de 300 mil vidas e aumentou em 2 milhões o número de compatriotas desempregados.

Faço votos de que saibais dar a este senhor, na política, o mesmo desfecho que o Exército soube dar-lhe no quartel. E que tenhais novo líder, comprometido com a democracia e o desenvolvimento.

Cordialmente,
Ernesto Geisel

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Esta carta me foi transmitida hoje cedo, via WhatsApp, por um leitor de Bento Gonçalves (RS), que garante tê-la psicografado nas primeiras horas da madrugada, em meio a sonhos e pesadelos.

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