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O outro 7

A independência do Brasil foi mais que um grito às margens raquíticas do Ipiranga. Foi um processo que envolveu variados grupos e interesses e poderia ter tido desfechos alternativos.

O Brasil já era, em 1808, o centro econômico do Império Português. Portugal tanto o dirigia quanto dependia dele. Mais que fugir de Napoleão, D. João VI instalou sua Corte no Rio antevendo futuros.

A criação de tribunais, chancelaria, intendência de polícia, entre outros órgãos, exigiu a organização de uma burocracia para fazê-los funcionar. Só o Paço Real gerou cerca de mil novos empregos.
Quando a revolução liberal eclodiu no Porto, passados 12 anos, já se consolidava no Rio uma elite de comerciantes, bacharéis e profissionais liberais muito bem atrelada às engrenagens estatais.
Não à toa, em nosso tempo, o historiador Evaldo Cabral de Mello chegou a dizer que a Independência foi dirigida por esta elite, por não aceitar perder para Lisboa a fonte de recursos e privilégios.
O fato é que, na entrada dos anos 20, os interesses eram mais variados. Em 1821, por exemplo, as províncias do norte formaram governos autônomos e se opuseram à regência de D. Pedro.
Já em Lisboa, com o apoio dessas províncias, ganhava corpo a ideia de um Reino Unido em que Brasil e Portugal seriam igualmente soberanos, sob a autoridade central de um Parlamento, não do rei.
Neste cenário de tensões e ameaças de cisão territorial, d. Pedro aproximou-se da elite conservadora ligada ao aparelho estatal, recusou-se a retornar a Lisboa e costurou um reino para si mesmo.
Já em 3 de junho de 1822, a Câmara aprovou a convocação de uma assembleia brasílica, com o acordo do príncipe. Jornais portugueses e manifestos brasileiros deram como certa a ruptura.
O 7 de setembro foi uma pincelada ligeira na tela, que só se fez mais exposta e brilhosa em 12 de outubro, para a aclamação de Pedro como Imperador, e em 10 de dezembro, para sua coroação.
Esses eventos não inauguraram uma nação harmônica, mas o reino de Pedro, com resistência interna de Norte e Nordeste, que desejavam "menos Rio e mais Brasil", com fortes tons liberais.
Veio a guerra civil, veio a Assembleia Constituinte, sobrevieram sobre ambas as tropas de Pedro I, garantindo a princípio o projeto de uma monarquia unitária e autoritária que o guiara em 1822.
Mas os 9 anos do reinado de Pedro I foram instáveis, com confrontos físicos e verbais. Em 1830, uma Câmara fortemente oposicionista e com vozes republicanas deu os tons do final.
Confrontos de rua, rumores de golpe e uma manobra política de Pedro I, recompondo o ministério apenas com fiéis escudeiros, terminaram levando ao outro 7, o de abril de 1831: a abdicação.
Mais eloquente que o 7 de setembro, este 7 de abril marcou a vitória do Parlamento contra o rei e, talvez, sirva melhor para compreendermos as relações entre os Poderes, então inauguradas.

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