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Como posso ser triste se, em 2024,

tive acesso, em sonho, aos manuscritos perdidos de quatro dos cinco cantos dos Retornos de Agamêmnon, Menelau e Helena, tendo ouvido dizer que o quinto canto encontra-se no Egito;


vi brotar uma flor de antúrio, vermelha, compensando outras cinco que morreram, pálidas, e há um mês mantenho vivas mais cinco flores, ainda não descoloridas pelo verão, que insiste em voltar;

consegui ler um diálogo de Platão em Grego, com a ajuda de dois dicionários, dez colegas de sala e um professor que, por sua vez, aprendeu a ler Platão com José Gabriel Trindade e Juvino Maia;

vi brilhar, vindo de Antares, a luz que de lá saiu pouco antes de Atahualpa tornar-se o décimo terceiro Sapa e mandar afogar seu irmão Huáscar, o décimo segundo Sapa, no rio Negromayo;

Maria Luísa, a segunda sobrinha, aprendeu a me chamar de Thiago e revelou à mãe que, embora nem sempre consiga lembrar meu nome, gosta de mim e quer voltar a se hospedar em minha casa;

não consegui escrever um único verso, mas li os 1781 versos de Apolônio de Rodes sobre as covardias de Jasão e os primeiros desatinos de Medeia, tendo aprendido boas lições sobre Eros;

não pus os pés nas águas do mar, mas passei boas horas contemplando suas ondas e me senti religado aos primeiros seres unicelulares que de lá partiram para a conquista do solo terrestre;

cansei-me, estive doente e sofri, mas não passei fome nem fui torturado, não fui assaltado nem assassinado, mantive o teto sobre a cabeça, o carro velho na garagem e o salário em pleno Brasil;

não ri com as comédias de Plauto e Terêncio, mas descobri a elegante escrita dramática de Sêneca em Latim e fui por ela lembrado de que a paixão desvia o ser humano da sanidade;

ou-vi Luizinho Calixto tocar o fole de oito baixos em Campina Grande, Maria Bethânia cantar Negue em Salvador e Mestre Luizinho, na boêmia de João Pessoa, garantir que é demais o meu penar.

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