tive acesso, em sonho, aos manuscritos perdidos de quatro dos cinco cantos dos Retornos de Agamêmnon, Menelau e Helena, tendo ouvido dizer que o quinto canto encontra-se no Egito;
vi brotar uma flor de antúrio, vermelha, compensando outras cinco que morreram, pálidas, e há um mês mantenho vivas mais cinco flores, ainda não descoloridas pelo verão, que insiste em voltar;
vi brilhar, vindo de Antares, a luz que de lá saiu pouco antes de Atahualpa tornar-se o décimo terceiro Sapa e mandar afogar seu irmão Huáscar, o décimo segundo Sapa, no rio Negromayo;
Maria Luísa, a segunda sobrinha, aprendeu a me chamar de Thiago e revelou à mãe que, embora nem sempre consiga lembrar meu nome, gosta de mim e quer voltar a se hospedar em minha casa;
não consegui escrever um único verso, mas li os 1781 versos de Apolônio de Rodes sobre as covardias de Jasão e os primeiros desatinos de Medeia, tendo aprendido boas lições sobre Eros;
não pus os pés nas águas do mar, mas passei boas horas contemplando suas ondas e me senti religado aos primeiros seres unicelulares que de lá partiram para a conquista do solo terrestre;
cansei-me, estive doente e sofri, mas não passei fome nem fui torturado, não fui assaltado nem assassinado, mantive o teto sobre a cabeça, o carro velho na garagem e o salário em pleno Brasil;
não ri com as comédias de Plauto e Terêncio, mas descobri a elegante escrita dramática de Sêneca em Latim e fui por ela lembrado de que a paixão desvia o ser humano da sanidade;

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