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No leito de Procusto

Vira e mexe, o velho Nondas dá um susto na prole. Ainda ontem, baixou hospital, com o potássio vibrando mais que bateria de escola de samba às portas do Carnaval. Ficou para averiguações.


Fiquei eu para uma longa jornada.

Tudo controlado, o velho Nondas relaxado, cobri seus olhos com o famoso paninho, que nos acompanha há gerações. Repassei os meus olhos no Ésquilo que levei na bolsa e - imaginei que dormiria.

A cama que a UTI reserva ao acompanhante é, na verdade, um sofá de dois lugares e braço nenhum. Quem deita, vindo de revisitar o mundo grego, teme logo que seja Procusto o dono do hospital.

Já fazia umas duas horas que eu oscilava entre as pernas recolhidas e os pés no chão quando a cabeça quis vencer a batalha dos membros e decidir, pelo sono, senão a melhor, a última posição.

Então, alguém gritou. Saltei em olhos e orelhas e pernas. O velho Nondas dormia, nem sinal de Procusto. Algum paciente flertava a morte, o filho pedia socorro. Carreira de batas no salão iluminado.

Outras duas horas na batalha das pernas e o velho Nondas chamou. Precisava do papagaio. Mais duas horas, e já entrava a enfermeira com remédios, antes que minhas pernas selassem a paz.

Tudo posto, entreguei pernas e alma a Procusto. Deitado, via meu pai. Em meu segundo dia de vida, descobriram que aqueles poderiam já ser os meus últimos. O jovem Nondas adoeceu.

Acordou com os dedos tomados pelo vitiligo.

De muitas coisas, faz-se a maturidade. Frustrações consolidadas, limites admitidos, golpes de amor dados ou sofridos e, até mesmo, alegrias que insistem em persistir e resistir neste vale de lágrimas.

Mas nada se compara ao momento em que, olhando para o pai, o que passamos a ver é um filho, exigindo de nós os cuidados e as ternuras, assim como o pulso firme, que um dia nos dedicaram.

Levantei-me, calcei os sapatos, banhei o rosto e, encarando de frente as três rugas que se me desenham na testa, ouvi no espelho, pela primeira vez na vida, o curto e contundente badalo do tempo.

*




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