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Francisco, bispo de Roma

 Há 50 dias, a freira Raffaella Petrini tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de Governadora do Vaticano.

Pouco antes, outra freira, Simona Brambilla, tornara-se a primeira mulher a chefiar um dicastério da Cúria Romana.

Este delicado movimento no xadrez milenar da Igreja Católica havia sido feito por um homem que, ao ser anunciado o primeiro Papa da América, preferiu apresentar-se apenas como bispo de Roma.

O detalhe pode passar despercebido, mas não é ingênuo em uma instituição cujo poder está assentado não apenas em patrimônio e diplomacia, mas também, e sobretudo, na força dos símbolos.

Jesuíta, com acesso à formação católica de elite, Jorge Mario Bergoglio sabia que a Igreja e o papado têm uma História e nem tudo o que parece ter sido sempre, sempre foi como hoje é.

No princípio, o bispo de Roma era apenas um dentre outros bispos e compartilhava com seus colegas de Alexandria, Jerusalém, Antioquia e Constantinopla a liderança e o prestígio primordiais.

Só no final do século IV, o bispo Dâmaso reivindicou para si a exclusividade do título de Papa. Um movimento dentre outros no processo secular de afirmação da primazia do bispo de Roma.

Eram tempos em que certas correntes do Cristianismo se romanizavam, ao mesmo tempo que a elite social e política romana cristianizava-se. Desta simbiose, surgiu uma versão oficial de Igreja.

Mas os movimentos anteriores do Cristianismo tinham mulheres no comando de comunidades cristãs; evangelhos outros que não os quatro canônicos, com retratos diferentes de Jesus de Nazaré.

Jesus era humano e divino, ou apenas humano? Em que data celebrar a Páscoa e o Natal? Como se poderia ordenar um bispo? Aos domingos, os fiéis deveriam rezar em pé ou ajoelhados?

Os primeiros cristãos divergiam entre si sobre estas e outras questões. Os primeiros Imperadores cristãos articularam com as autoridades eclesiásticas uma ortodoxia que unificasse o Império.

Esta colaboração entre Igreja e Império avançou por capítulos que não cabe aqui descrever. Importa lembrar um detalhe pouco ou nada notado desde que Bergoglio tornou-se Francisco em 2013.

A Igreja oficial sempre enfrentou movimentos de contestação e reforma. Muitos sucumbiram, categorizados de heresias, às perseguições; mas alguns foram assimilados e domados por Roma.

O século XII viu grandes transformações na Europa. Do mesmo caldo social, econômico e cultural de onde brotaram rotas comerciais e universidades, surgiu a ordem de Francisco de Assis.

Eram tempos em que a Igreja oficial tanto atingia o ápice de seu poder na geopolítica europeia, quanto era atingida por movimentos que denunciavam a corrupção do clero e de Roma.

Francisco de Assis foi a Roma pedir autorização para viver conforme o evangelho. Roma autorizou e rapidamente institucionalizou, com sucesso, o pedido de Francisco.

Trezentos anos e outra conjuntura geopolítica depois, o movimento de Lutero teve destino bem diverso. Eram tempos em que príncipes e reis europeus moviam-se para conter rendas e terras dos papas.

"Não se esqueça dos pobres" - o pedido do cardeal Hummes teria inspirado Jorge Mario Bergoglio, segundo a versão contada pelo próprio Papa hoje falecido, a escolher o nome de Francisco.

Mas é impossível não pensar que, ao apresentar-se como simples bispo de Roma, em um caminho de reciprocidade com os fiéis, ele estivesse se conectando a estes momentos seminais da Igreja.



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