O jovem Jorge Mario Bergoglio era filho de um italiano que emigrou para Buenos Aires fugindo do regime de Mussolini. Técnico em química, trabalhou em fábrica, foi professor de literatura e namorou antes de tornar-se padre.
Como jesuíta, seu ministério conheceu dois momentos distintos. Após breve ascensão, chefiou a congregação na Argentina e teve atuação controversa nas relações com o regime militar. Caiu no ostracismo e dele ressurgiu diferente.
Na segunda fase, atuou como bispo em Buenos Aires, alinhando-se a uma Igreja engajada em pautas sociais, mas sem engajar-se em militância partidária. Nada muito longe da velha doutrina social da Igreja, iniciada por Leão XIII na transição para o século XX.
Jorge Bergoglio, portanto, foi um homem que conheceu na própria pele, ainda jovem, a vida de um operário e o dilema de um líder em momento crítico. Trazia consigo a consciência de que cada humano é um ser em contínua evolução.
Uma carta sua, já quando Papa, faz pensar sobre isso.
O Papa Bergoglio escreve sobre o papel da literatura na formação e no amadurecimento de qualquer cristão. Rejeita a noção de literatura como algo não essencial e sustenta que ela contribui para fazer desabrochar a riqueza pessoal de quem lê.
“Gosto muito dos artistas das tragédias, porque todos podemos sentir as suas obras como nossas, como a expressão dos nossos próprios dramas. No fundo, ao chorar o destino das personagens, estamos a chorar por nós mesmos: o nosso vazio, as nossas falhas, a nossa solidão.”
São palavras tão intelectualmente estimulantes e emocionalmente acolhedoras quanto outras palavras e gestos de um homem que, enquanto Papa, sabia contar piadas, dizer gracejos, perder a paciência, pagar a conta da hospedaria ou sair à rua para comprar um par novo de óculos.
Bergoglio parecia adaptar-se tão mal à batina branca de Papa (as calças pretas estavam sempre à vista por baixo) quanto ao Palácio Apostólico ou ao túmulo na necrópole vaticana, que solicitou ser trocado por algo mais discreto em Santa Maria Maior.
Sua liderança bem-humorada e espontânea era inspiradora em tempos nos quais a espontaneidade tornou-se um pretexto para a mentira e a selvageria, em dimensões midiáticas que aniquilam, precisamente, aquele ‘espaço para o desabrochar’ da literatura.
Um Papa é, antes de tudo, um ser humano. E este, ao tornar-se Papa, leva para a função as cores de sua própria personalidade. Mas o ser humano que se torna Papa também passa a ser limitado pela tradição que o cargo, por sua história acumulada, fabricou.
Sepultado em Santa Maria Maior sob o nome em Latim de FRANCISCVS, o Papa Bergoglio parece ter saltado para fora das estruturas de Roma em seu gesto final. Mas uma boa olhada nas estruturas de Roma confirma que isso acontece, ao final?
Houve uma Roma Antiga, ao norte da qual se construiu a dos Papas. Nesta segunda Roma, há quatro basílicas papais, todas alinhadas entre si de modo a formarem uma cruz imaginária na geografia da cidade.
Os braços da cruz ligam São Pedro a São João de Latrão, o eixo vertical liga Santa Maria Maior a São Paulo Fora dos Muros. Em seus quadrantes inferiores, esta cruz demarca os sítios da antiga Roma Imperial, elevando-se sobre e em torno deles.
Por sua vez, Santa Maria Maior forma o braço de outa cruz imaginária, cujo eixo vertical se assenta no Palácio do Quirinal, antiga residência dos Papas - quando eram os reis de Roma e suas redondezas - e atual dos presidentes italianos.
Sepultado em Santa Maria Maior sob o nome em Latim de FRANCISCVS, o Papa Bergoglio terminou saltando para dentro das estruturas de Roma. O gesto final de quem mergulhou dentro de si e da instituição para mudar ambos por dentro?
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