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Sonho de verão


A inflação virou septicemia. Saiu da feira, das contas de casa, da bomba de combustível e atacou o verão. O calor passou do abusivo e o poder lenitivo do vento virou água na testa, na canela, no sovaco. 

Dia desses, fui dar um plantão judicial. Ar condicionado? Central. Desligado. Janelas? O arquiteto esqueceu de fazer. Saí pra almoçar. Ar condicionado? Quebrado. Janelas? A arquiteta saiu pelos fundos.

Fui pra casa. Chão sujo. Olhei pra vassoura e uma piscina de suor já se formou sob os pés. Abri a janela e o paredão de vinte andares em frente roubou a ausência de vento só pra si. Árvores? Que são?

E o sujeito vai ficando pê da vida com os arquitetos das caixinhas de vidro ou sapato, com os planejadores das cidades de sol e suor, com quem cometeu o despautério de criar uma civilização entre os trópicos.

Se eu fosse o ditador-de-papai da Coréia do Norte, ao invés de brincar com armas que podem aquecer ainda mais essa rocha, decretaria a migração forçada da humanidade para as zonas temperadas.

Mas eu não mando nem em casa e, quando a diarista chegou pra me livrar da desnaturação com a vassoura, saiu fechando as janelas. Pra o vento não espalhar a poeira. Vento?! Onde, pelo amor das proteínas?!

Ar condicionado central em casa, eis a idéia. Mas a inflação não deixa. Sair pra tomar a fresca? Mas um shopping center passou por cima do rio. Desabar pra Campina! Mas o expediente no outro dia...

Restava o carro. Meti-me nele, ar no último giro. E saí por aí, aquecendo quem fritava - na praia, no andaime, na Epitácio, no posto de combustível. Encher o tanque, no cartão. E a septicemia ardendo.

Gastar o tanque, no pezão. E uma pracinha convidando à sombra, ao sono, ao cochilo. Encostei. Motor ligado, ar glacial. Recostei o banco, desliguei a cuca. E o sonho foi chegando de mansinho.

Aposentadoria na Patagônia. Casinha no alto da colina. Mozart tocando em vez de lareira estalando. A Comédia Humana pra atravessar o inverno. E a vontade de não abrir os olhos até 2046.

*

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