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Não é agosto de 54, mas



Lula se equipara sempre e tanto a Getúlio que, quando ficou evidente que a Polícia Federal o encontraria de pijama para mandar má notícia, eu passei a me perguntar: só morto ele sairia do ABC?

Agora, já sei e sabemos todos que ele saiu e voltou, está vivo. Como já sabia e sabíamos todos que ele é vivo e, não tendo resposta racional para os indícios de que andou em delito, foi ao teatro.

No teatro, fez uso da persona que parece lhe restar: o pobre coitado que venceu na vida, chegou ao topo e agora se vê ameaçado pela elite [a que, em alguns graus, ele próprio se integrou].

Provocou as reações apaixonadas de sempre. Entre os que se revoltam contra ele, entre os que se revoltam contra os que se revoltam contra ele, entre os que se revoltam sabe-se lá contra o que mais.

Sob brados retumbantes, só consigo ter uma reação. Desço ao escritório, tiro O Aleph dos degraus e leio Os teólogos, aquela jóia de brilho discreto que Borges cravou na coroa da literatura universal.

Mas o momento é tão excepcional que até os céticos e moderados precisamos ter um pouco menos de imperturbabilidade. Não para salvar a pátria, que anda escapando há dois séculos.

Mas para salvar a própria sanidade, e a de quem mais quiser juntar-se ao simpósio, regado pela Retórica de Aristóteles, semeado pelos Sermões de Vieira. Afinal, o debate no país anda em petição de miséria.

Vejo, leio e escuto três grandes causas para a revolta contra Lula, Dilma ou o PT. Concordo com duas, discordo de outra, faço ressalvas a todas. E isso não vale menos para quem vem na mão contrária.

Uma revolta, recente, tem como causa a política econômica de Dilma. Compreendo, concordo e acrescento: como furado foi o papo de fazer crescer pra dividir, furado é o de dividir sem fazer crescer.

Outra revolta, menos nova, tem como causa a forma como Lula e, com ele, o PT se integraram ao arranjo político armado a partir de 1985, o qual anda cambaleado por sintomas de infecção generalizada.

Compreendo, concordo e acrescento: esta revolta só não é justa se deixar de retroagir a 1985. Mas faço aqui duas ressalvas: com uma, fala o Maquiavel que me habita; com outra, fala Montesquieu.

É ingenuidade e tolice esperar de quem preside a República a retidão de caráter que a moral cristã e privada espera de quem preside apenas a própria vida. A virtude do líder é outra, é a virtù maquiavélica.

Se quisermos que o líder exerça esta virtù de maneira mais republicana, precisamos dar a ele sócios mais republicanos no Congresso Nacional, nos estados e nos municípios. Mas não temos feito isso.

O problema, que vai ficando cada vez mais evidente no caso de Lula, é que ele não apenas jogou com as peças do xadrez, mas também levou pra casa o cavalo, o bispo e a torre, todos muito generosos.

A terceira revolta, mais antiga e recalcada, é a que tem por origem o fato de o lulo-petismo ter se investido no papel de redentor social e cultural do país. Aqui, a UDN mostra que também vive.

Aqui, fico em estado de alerta contra ambos. 

A questão social e os desafios de abertura cultural não pertencem ao PT nem se esgotam com ele, sequer encontraram nele os avanços efetivos que o partido pretende, eleitoralmente, ter realizado.

Por outro lado, resisto a todo e qualquer sentimento de regresso conservador que se alimenta do erro de Dilma na economia, do crime de Lula na praia e na fazenda, para ganhar vez e voz no debate.

E é por isso que, assim como não fui ao velório de Vargas no Catete nem fiz coro com Lacerda nos jornais, não vejo motivo para mudar a posição sessenta e dois anos depois. Daria apenas um pitaco.

Que Lula vá ao encontro do Juízo Final, os cardeais convoquem o conclave e o novo papa passe uma temporada de exercícios espirituais, refletindo mais sobre os erros que os acertos. Em Avignon.

*

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