Não vai fácil, nada fácil, a vida do cronista. Um impeachment aqui, uma ponte que cai no mar, um vice de sorte pelo caminho, uma rainha que faz aniversário acolá.
Sorteio o tema, começo o texto e...
Nada, nada fácil. O texto firma o pé, cruza os braços e, como menino birrento em dia de ir ao dentista, murmura e tritura, regurgita: aqui não saio, aqui ninguém me risca.
Fosse isso apenas, haveria o consolo da poesia; mas, se o cronista desanda em vertigem, o poeta nem anda. Em pane. Em pane, o poeta. Canta, ó Musa, canta!
Pior, muito pior que isso. O computador foi dormir e não mais ligou. E a crise no bolso, não melhor que na mente, vai deixando sem adjunto quem já se vê sem o objeto.
E a cena se fecha em um riso. Mecânico e lambuzado de tinta, este riso. Riso da velha Remington Ipanema, que engole poeira num canto, e me diz: "foi você quem não quis mais".
Vou até ela, faço a corte. Ela exige apenas tinta nova e flanela. Dou-lhe uma, também a segunda e, em terceiro agrado, dou-lhe a folha em branco. Vamos lá, querida, trotemos!
Mas ela, revigorada, quer lembrar. E falar.
- Lembra-se de 92?
- Como não, querida? Agora mesmo...
- Do jornal, lembra-se?!
Ai, o jornal. Como não lembrar? Corria o ano de 1992. Não havia brasileiro que não se sentisse com o poder de acuar o Congresso e impedir o presidente da República de apaniguar.
Em Campina Grande, também eu quis morder e ladrar. Tirei a Ipanema para uma dança, editei um jornal contra o governo, distribuí o panfleto às pessoas de boa vontade.
Quando Collor foi derrubado, ri o riso dos fortes. Mas chorei logo em seguida, quando quem caiu foi Ulysses, o herói daquela nossa guerra, para nunca mais retornar.
Um impeachment, uma queda em pleno feriado no mar...
Em 92, duas mulheres também deram notícia. Mas, tempos apimentados, a do vice não usava calcinha e a princesa de Gales pedira o divórcio porque o casamento estava populoso demais.
*
Comentários
Postar um comentário