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20 bestidades em torno do cronista, à moda de uma corrente que vem do Vale do Silício


01. Nasci no século XX, mas fui educado no XIX. Vovô José rezava em latim, vovó Lozinha usava o português segundo Napoleão Mendes de Almeida e o Instituto Pedrosa não devia muito à escolinha do mestre Policarpo naquele conto de Machado.

02. Isso é humor, mas não é brincadeira. Eu já passava dos 10 anos quando aceitei, contrariadíssimo, que nasci em 10 de dezembro de 1983, e não de 1883. Vovó me deu uma cocada de leite extra como prêmio pelo gesto de viabilidade mental e social.

03. Falando em tudo isso, fui votar com vovó no plebiscito de 1993. Aliás, votei por ela. É que vovó tinha dificuldade de enxergar e me entregou a caneta; eu marquei um X na monarquia e outro no parlamentarismo, depois ajudei a depositar a cédula na urna.

04. Já vovô costumava me dar pra ler aqueles livrinhos com a biografia dos grandes homens da humanidade e dizia: “tem que ser um desses, meu filho!”. Até me contaminei com o delírio, mas nunca me achei suficientemente cruel pra ser grande.

05. Licença pra um salto. Em 2012, fui ver Macbeth, a ópera, em São Paulo. Lá pelas tantas, lady Macbeth cantou pro marido: “Homem de deus, a estrada pro poder é cheia de vilezas e crimes. Se não tá pronto pra ser cruel, caia fora!”. E eu vi que achei certo.

06. Já que dei um salto, vou misturar as épocas mesmo. Fui católico e quis ser padre. Nessa época, por sinal, eu devia ser muito chato. Até hoje, quando encontro quem conviveu comigo naquele tempo, tenho vontade de pedir perdão e pagar penitência.

07. Hoje, sou agnóstico. Mas considero os deuses os personagens mais bem sucedidos da literatura e me amarro nos rituais católicos. A missa papal é um teatro gostoso de ver, e eu daria tudo pra ser a vela que queima na Capela Sistina durante o Conclave.

08. Penso que o trabalho é um mal necessário. Sendo um mal, não deve ser louvado; e necessário, não pode ser evitado. Minha utopia: um dia, as máquinas serão escravas e todos os humanos seremos aristocratas dedicados à arte, à ciência e à filosofia.

09. As pessoas em geral me acham um homem muito sério, mas parece que tiram disso conclusões equivocadas ou precipitadas. Além dos cívicos e dos privados, só cabe um dever à pessoa séria: manter a sanidade por meio do bom humor e do sexo livre.

10. Em 2010, lancei uma coletânea de poemas que ficou em primeiro lugar na lista dos livros menos vendidos da Livraria da Esquina. Inscrevi o tal no Prêmio Jabuti pra dar gosto a vovô, mas o exemplar foi extraviado durante assalto à agência dos Correios.

11. Falando em livros, vou aproveitar pra fazer propaganda, tá? Minha segunda coletânea sai daqui a pouco. Já tem poemas, capa, ilustrações e um convite para o prefácio. Só faltam editora, dinheiro pra pagar a gráfica e gente interessada em ler.

12. Estudei piano em casa. Um dia, o professor quis aumento de honorários e me chamou de pequeno Mozart. Meu pai ligou pra Moscou e marcou audição num Conservatório. Fiquei tão assustado que só aprendi a tocar ‘Parabéns pra você’. E mal.

13. Só falo do passado, porque meu presente é um museu de arte contemporânea: nada exposto. Sou burocrata, levei um quase-casamento à falência e, além dos dois livros encalhados, escrevi um de contos, do qual João Matias já disse: não tem unidade.

14. Descobri na crônica um alívio. Diria mesmo que escrever crônicas é o terceiro dever da pessoa séria (item 09), mas quase todos os amigos escritores acham meu estilo cheio de traça e poeira. Qualquer dia desses, volto a assinar tanto do tanto de 18...

15. Por sinal, o tempo é o meu assunto predileto. Dizem que eu daria um bom historiador, mas sou anacrônico e misturo as épocas sem vergonha nem licença poética. Minha profecia: Rômulo, Remo e HAL 9000 mamarão juntos na mesma loba.

16. O que eu levaria pra ilha deserta? Bom, pressupondo que já estejam lá o chalé mobiliado, a comida e as instalações elétricas e hidráulicas, eu levaria a bibliografia de Machado, a discografia de Bethânia e dez pessoas de gêneros sortidos para amar.

17. Em agosto, vai nascer Mariana, minha primeira sobrinha. A danadinha nem nasceu, mas eu já a amo como se fosse a nova Bethânia ou a reencarnação de Machado. Prometo ser um tio tão bom pra ela quanto tia Mércia tem sido boníssima pra mim.

18. Estou altamente desatualizado em quase tudo o que aconteceu nas artes ao longo dos últimos 32 anos e 6 meses menos 1 dia. Mas sei que Javé criou o mundo em seis dias e, no sétimo, chamou Cartola pra dar algum sentido a essa traquinagem imperdoável.

19. Comecei a beber tarde, depois dos 30. Tenho, pois, a vantagem de reunir fígado intacto e cérebro rodado. Mas me arrependo de não ter bebido com os amigos quando adolescente; graças a isso, fiquei fora da freqüência nas melhores farras e fodas.

20. Os amigos à direita suspeitam que eu seja um literato anarquista; os à esquerda me vêem como um pequeno-burguês individualista e acomodado. Eu sou mesmo é um cristão: amemo-nos uns aos outros, gente. O resto é confeitaria e deixa diabétic@.

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