Por esses dias, andei me lembrando de um professor de inglês, nascido na Inglaterra, que certa vez me mostrou uma imagem da rainha, apontou as jóias da coroa, sorriu e disse mansamente: "todas roubadas".
Na mesma época, um advogado paquistanês ajuizou ação em um tribunal londrino solicitando a devolução de uma das pedras surrupiadas ao seu país natal. A Justiça negou e o primeiro-ministro se pronunciou.
"O problema em um pedido como esse é que você se dá conta de que, se atender ao primeiro, terá que atender a todos os seguintes e isso pode fazer com que, ao fim, a National Gallery fique totalmente vazia."
Tudo isso me faz supor que o British humour não nasceu com os ensaístas nem se renovou com Fawlty Towers e Blackadder; talvez seja o resíduo de dois ou três séculos de pilhagem e pirataria mundo afora.
Não sei se foi o Brexit que me levou a tais lembranças, mas vi uma cidadã inglesa afirmar que não sabia ao certo as implicações do que estava fazendo ao votar por sair da União Européia. Falou mansa, mas não sorriu.
Jornalistas, políticos e acadêmicos arriscaram explicações à senhora e a quem mais quiser (con/dis)cordar. É o triunfo do establishment sobre a social-democracia, afirmou Owen Jones, do Guardian.
E acrescentou: a Inglaterra vive o fim de uma era, sem saber ainda para onde vai.
Essas declarações retumbantes (como a de um jornalista brasileiro que anunciou o retrocesso civilizatório inglês) lembram-me uma passagem curta e grossa de outro célebre britânico, Jorge Luis Borges.
As afirmações sobre os fatos ainda em curso não fazem a história, fazem o jornalismo; a história, disse Borges, tem mais pudor e só se deixa despir muito depois, quando as paixões já serenaram. Vai aí alguma verdade.
Mas não sei se vai toda a razão.
Bem, li há pouco um artigo do Dr. Robin Niblett, da Chatham House, que parece pôr o pingo nos is: a propaganda pró-saída culpou a União Européia pelos males ingleses, mas não deu as soluções caseiras.
A julgar pelas notícias, os ingleses têm um Johnson para cada era. E o Johnson da vez sorri, fala manso e não parece dizer que a fortuna de sua gloriosa ilha vem de furto.
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Koh-i-noor, do Paquistão à Parada Inglesa.
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