Um dos maiores prazeres da vida - depois de descobrir (e não revelar) a idade das mulheres que detestam a velhice - é fazer a feira. Não sei ao certo por que, mas colho aqui acolá uma pista.
Talvez seja mania de solteiro solitário. Indo ao mercado, fio laços com os funcionários, fico sabendo dos seus dramas, deixo-os a par das minhas queixas e assim nos ajudamos a seguir adiante.
Vejam o caso de (ela pediu sigilo quanto ao nome), coitada. Dois
rebentos sadios e um marido doente. Um dos filhos, logo o varão, largou o
emprego em Mangabeira VIII e foi tentar a sorte no Rio.
- Mas isso de tentar a sorte no sul não caiu em desuso?
- Pois é, eu disse a ele, mas... cabeça de jovem, né... vá entender!
Depois que o filho partiu, passei a aliviar a amargura da mãe com chocolates. Ela retribui fazendo votos de que eu venda um milhão de livros e largue o emprego chato sem chatear mais uma mãe.
E temos assim nossa comunhão dominical. Ou tínhamos. É que minha amiguinha andou sumida. Temi sua demissão. Mas soube que a mudaram de turno e unidade; ganhou uma boa promoção.
Feliz dela, triste de mim, que fiquei vagando semanas a fio pelas gôndolas, sem ter com quem atar outro laço, até que dia desses tomei a fila dos idosos. Um ato-falho, decerto. Mas sem perdão:
- Já não basta o governo tomar minha pensão?!
Percebi o equívoco. Não o meu, mas o dela, que não se deu conta de como este rosto horrivelmente jovem oculta um espírito tremendamente velho. Quem vê cara - que dizem mesmo os sábios?
- Não vê meu coração, senhora? Na verdade, sou idoso. Nasci em 1883, completo 133 anos em dezembro vindouro.
Ela quis chamar o segurança, mas se deteve à porta do grito e lançou sobre mim o olhar piedoso que se costuma reservar aos bem birutas e aos muito velhos. Calou-se. E aguardou sua vez.
No domingo seguinte, na mesma fila, senti a voz conhecida saltando por trás do ombro. Queijo de cabra? Bom pra finalizar o rubacão. Trocamos palavras de dar água na boca. Ao fim:
- Prazer. Omesina. Você passava dos sessenta quando eu nasci.
Sorri duplamente. E convidei Omesina para o almoço de logo mais.
- Mas isso de tentar a sorte no sul não caiu em desuso?
- Pois é, eu disse a ele, mas... cabeça de jovem, né... vá entender!
Depois que o filho partiu, passei a aliviar a amargura da mãe com chocolates. Ela retribui fazendo votos de que eu venda um milhão de livros e largue o emprego chato sem chatear mais uma mãe.
E temos assim nossa comunhão dominical. Ou tínhamos. É que minha amiguinha andou sumida. Temi sua demissão. Mas soube que a mudaram de turno e unidade; ganhou uma boa promoção.
Feliz dela, triste de mim, que fiquei vagando semanas a fio pelas gôndolas, sem ter com quem atar outro laço, até que dia desses tomei a fila dos idosos. Um ato-falho, decerto. Mas sem perdão:
- Já não basta o governo tomar minha pensão?!
Percebi o equívoco. Não o meu, mas o dela, que não se deu conta de como este rosto horrivelmente jovem oculta um espírito tremendamente velho. Quem vê cara - que dizem mesmo os sábios?
- Não vê meu coração, senhora? Na verdade, sou idoso. Nasci em 1883, completo 133 anos em dezembro vindouro.
Ela quis chamar o segurança, mas se deteve à porta do grito e lançou sobre mim o olhar piedoso que se costuma reservar aos bem birutas e aos muito velhos. Calou-se. E aguardou sua vez.
No domingo seguinte, na mesma fila, senti a voz conhecida saltando por trás do ombro. Queijo de cabra? Bom pra finalizar o rubacão. Trocamos palavras de dar água na boca. Ao fim:
- Prazer. Omesina. Você passava dos sessenta quando eu nasci.
Sorri duplamente. E convidei Omesina para o almoço de logo mais.

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