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Notinha por amor à língua portuguesa



Cármen Lúcia é aquela ministra do STF que, certa vez, tomou a palavra numa sessão em que seus colegas discutiam a rebimboca da parafuseta, num português que o padre Vieira teria desancado no Sermão da Sexagésima, e disse:

"Senhores, se nós ficaremos aqui debatendo madrugada adentro, vamos pelo menos aumentar a temperatura do ar condicionado, que eu estou congelando."

Os ministros não riram (ministro de STF ri?), mas encerraram a sessão. Graças a Carminha, que ganhou minha admiração. E continua com ela. Afinal, também foi ela quem fez uma honrosa advertência em outra ocasião:

"Isso de ser chamado de Excelência é perigoso, porque a pessoa termina acreditando que o é de verdade."

Meu respeito a Cármen Lúcia, portanto. Assim como a quem opina que ela foi grosseira com Dilma, desde que a mesma pessoa diga que é grosseria pegar na língua de Temer por causa da mesóclise. Grosseria o cacete. 

Agora, por amor à língua portuguesa, vamos conversar, Carminha. Não, não, vamos ler. Olhe só. Vamos ler D. Dinis, rei de Portugal por mais de quarenta gloriosos anos e autor de cantigas de amor, aquelas jóias do português dos séculos XII, XIII.

Lê só, Carminha:

A mia senhor que eu por mal de mi
vi e por mal daquestes olhos meus
e por que muitas vezes maldezi
mi e o mund'e muitas vezes Deus,
..........des que a nom vi, nom er vi pesar
..........d'al, ca nunca me d'al pudi nembrar.

Tás vendo, Carminha? Por amor à língua portuguesa, já posso te chamar de senhor presidente, né? Que esse a de senhora não havia no tempo de El Rey não. E isso de maldezi em vez de maldisse, mulher? Vamos desancar D. Dinis, né nom?

Olhe, Carminha, é tão difícil nembrar (escreva lembrar não, viu; por amor à última flor do Lácio, inculta e bela) de todos os exemplos que eu tenho pra lhe dar, que vou pular uns séculos aqui. Vamos falar de leis, sem sair de reis.

Sabe aquele tal de D. Pedro II, ainda hoje afamado como poliglota e erudito. Você lembra que a gente ainda estudou na faculdade o Código Commercial do Império do Brazil, assinado por ele em 1850, assim mesmo, com z e dois m?

Pois bem. Lembra que ele assinava Magestade, com g? Nembra? Imagine você o ódio generalizado à língua que deve ter sido quando alguém botou um jota na história. Nem Cristo, Carminha. Nem Cristo, né nom?

Olhe, vamos fazer o seguinte. Fale nos autos ou fora deles, com aquela elegância que você tem e me atrai, mas não fale do que não sabe não, que você passa vexame histórico e não me ajuda a defendê-la. Combinado, mia senhor?

Pois então, tchau. Vou ali, voltar pro meu Machado. Qualquer cousa, ligue, visse.

*

D. Dinis, rei de Portugal e poeta da coita.

*

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