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Notas à beira do 7 de setembro



O presidente da República foi à tevê no dia da posse e anunciou que a hora é de reconciliação. Nunca sei ao certo o que querem dizer os mais otimistas quando se referem à reconciliação no Brasil.

Vamos ficar com os anos de Independência, que fecham em 194 daqui a quatro dias. Se reconciliar é tornar à conciliação primitiva, certamente o primitivo aí não se refere ao tempo em que engatinhávamos.

Quem duvidar, pergunte a Libero Badaró ou escute o canto das garrafadas. Aqueles, foram anos de tumulto. Assim como os seguintes: liberais, escravos, conservadores na oposição, todos se revoltavam.

O brasileiro mais ilustrado e esperto daquela época foi d. Pedro II, que criou a figura do chefe de gabinete (um prime minister tupiniquim) para levar os solavancos em seu lugar. Foi a sacada do século!

O imperador se manteve no posto, inabalável, por 49 anos e só caiu por conta de uma fofoca do major Sólon. Isso mesmo. Porque os republicanos de vergonha esperavam a morte do velho para dar o golpe. 

Já os chefes de gabinete, coitados! Foram 32 em 42 anos. Calculem, leitores, calculem. Isso mesmo: a cada ano e três meses, em média, mudava o homem que decidia o preço do café e do escravo.

Talvez, então, a conciliação primitiva esteja na República. Não, não, alto lá. Deodoro sofreu golpe, Floriano enfrentou guerra civil e Prudente de Moraes, apesar do nome de manso, quase foi baleado.

Eu ainda depositaria alguma esperança de concórdia nos dez primeiros anos do século passado, mas só porque não sei patavinas desse período. E a ignorância, sabemos todos, é uma bênção.

Aliás, deixem-me dizer em inglês, pra ficar mais poeticamente pauleira (ou seria pauleiramente poético?): ignorance is bliss. Bom, em todo caso, alegria de ignorante é como a de pobre: dura pouco.

Mal dobramos a década e já estava ali Rui Barbosa, golpista em 1889, denunciando a fraude eleitoral em 1910. Mais um pouco, encontramos a polícia descendo o cacete em operários e anarquistas.

Na altura de 1922, o consórcio do café com leite entrou em colapso. O presidente Artur Bernardes sustentou-se por 4 anos a base de estado de sítio; seu sucessor sustentou-se por mais 4 e foi sitiado.

De 30 pra cá, a história está mais viva em todos nós que tivemos avós ou folheamos os extintos almanaques. Gaúchos contra paulistas, paulistas contra gaúchos, Getúlio contra todos, todos contra Getúlio.

Daí em diante, pra apressar o passo, que a crônica se cansa, a história é ainda mais sabida: Vargas evita a infâmia com um tiro, o general Lott dá o golpe pra evitar um golpe, Jânio dá piti e Jango cai no segundo round.

Enfim, 64. O ano do triunfo. Depois de golpes tentados ou cravados em 1889, 1930, 1937, 1945, 1954, 1956 e 1961, as Forças Armadas se anteciparam a Brizola na arte de eliminar a luta de classes.

Até que chegamos a 1988 e, finalmente, conseguimos uma Constituição à altura de nosso melífluo caráter. A economia pode ser liberal, social-democrata ou socialista, a depender da dosagem.

Na política, temos um presidencialismo que mais parece o cardeal Lorscheider: cara de alemão brabo, voz de criança raquítica. Se o Congresso der dois gritos, @ presidente se mela nas calças e chora.

Talvez, agora sim, tenhamos a civilização. Ou estejamos nos primórdios dela. Não há balas, decapitações nem garrafadas. Disputa-se o poder na urna, na Justiça Eleitoral e no impeachment.

E o que é a civilização, poeta Michel, senão a irmã sonsa da concórdia? Esconde uma manifestação aqui, uma trombada policial ali - e vai fazer negócios da China acolá. "Assim a paz, destroçada." 

Se assim for, assumamos de uma vez por todas o que somos, saiamos do armário. E proclamado o parlamentarismo, revoguemos o golpe inaugural: chamemos de volta o rei. No Supremo.



Não bastasse ser o autor da fofoca que precipitou a República, o major Sólon foi o portador da má notícia ao Imperador.

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