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Uma causa perdida


Não sei ao certo quando começou a acontecer. 

Há quem diga que a culpa foi do tamagotchi, outros afirmam que o processo é mais antigo e só do orkut pra cá é que a coisa toda ficou evidente, e ainda há quem negue todo e qualquer sinal de colapso.

O fato é que ninguém mais se dispõe a uma rodada de Sueca, a uma partida de Detetive ou a quatro horas de War para conquistar Europa, América do Sul e um terceiro continente de livre escolha.

E eu suponho que tudo começou naquele verão terrível em que derrubaram o muro do Poço para abrir uma avenida. Dali em diante, fomos proibidos de freqüentar a calçada e condenados à tevê.

O leitor exigente perguntará o que tem a ver a calçada com o fim dos velhos jogos. E eu responderei que nada, à primeira vista; como nada teve o cercamento dos campos com a obra de Charles Dickens.

Mas para um lado vai a razão, para outro o coração. E até ficariam assim, sossegadamente desquitados, não fosse a vontade de embaralhar cartas, que volta com gosto e não encontra parceiros.

Outro dia mesmo, depois de súplicas e humilhações pelos chats em busca de duas ou três almas caridosas para uma partida de três mil pontos no Buraco, abandonei a conversa e parti pro contrato.

Usei uma linguagem mais universal que o inglês ou o esperanto: ofereci dinheiro a quem se dispusesse a jogar, nem que fosse uma mísera rodada de Relancin. E o mais estrepitoso silêncio se fez. 

Expus a queixa a um amigo realista e pragmático, que me deu o parecer a queima-roupa: compre o iPhone 7 ou vá caçar pokémons e veja como anda perdendo energia com essas velharias.

Consultei a poupança: o que lá vi não compra nem o iPhone 1; saí à feirinha de Tambaú, cacei dois bichinhos e no terceiro já estava entediado. Voltei ao amigo e relatei o resultado da experiência.

- Você tá é com cara de velho cansado. Vá ao salão, corte o cabelo, derrube essa barba.

Que seria de mim sem bons conselheiros? Foi o que fiz. Estava lá no salão, em meio a uma fila de três horas, quando se sentou ao meu lado um velho mais velho que eu. Sorriu, retribuí, veio o papo.

Dali a cinco minutos, éramos íntimos. Notei que ainda estávamos a hora e meia de ser atendidos e propus que esperássemos no café, quem sabe, jogando uma partida de Crapô. Ele sorriu com piedade.

- Em outra encarnação, filho.

E, sacando o celular do bolso de uma estilosa cargo, pediu licença para avançar mais dois ou três níveis no columns enquanto não chegava sua vez.

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