Pular para o conteúdo principal

Segredo de elevador


Dia desses, tomei o elevador em direção a uma tarde de suplício burocrático e dois colegas entraram nele no andar seguinte. Estávamos no térreo; eu vinha do subsolo e desceria no 1º andar.

- A polícia pegou os bandidos do assalto.

- E o dinheiro?

- Ninguém sabe, ninguém viu.

- Ora ninguém sabe! E pra que serve um alicate?



- É só me dar um cabra desse que eu arranco a verdade. E com muito gosto!

O elevador estancou, a porta demorou a eternidade de cinco segundos pra abrir e eu saltei com o desespero de quem não tem encontro marcado com o alicate, mas vai encarar o expediente.

Três anos atrás, visitei um museu da Inquisição. A visão daqueles instrumentos de tortura - tão inofensivos na Córdoba de 2013 quão terríveis na Sevilha de 1482 - foi das piores que já tive.

A pera da angústia, o estripador de seios, a cadeira de pregos, o berço de Judas; era tudo tão cruel, ainda que feito em nome de Deus, que não se pode aceitar um reles alicate em troca do roubo.

Mas o que me chamou a atenção no episódio foi o complemento que o colega deu à frase: - e com muito gosto! Que ele queira Justiça e esteja desacreditado nas leis nos juízes, tudo bem.

O que ele queria, entretanto, meio secreta, meio deslavadamente, era o prazer na dor alheia. E com muito gosto... e com muito gosto... e com muito gosto... Aquilo ficou me martelando a cabeça.

Até que hoje à tarde virei o prego.

O homem falou o que não diria em casa, na presença dos filhos e da santa mãe; o que não confessaria ao padre nem admitiria para os amigos mais íntimos depois de dois gols do time e três cervejas.

E por que ele falou? Porque estava no elevador, foi o que concluí. O elevador é o único lugar em que qualquer um de nós confessa pensamentos vergonhosos com a naturalidade de um ato-falho.

Entremos no elevador. 

Ali estamos: quatro, cinco, seis pessoas amontoadas por um, dois, três minutos e tendo que encarar umas às outras com a voz interna que vai sussurrando "fale alguma coisa, seja simpático!"

O sujeito quer comentar o clima, mas não há janela; quer desancar o governo, mas suspeita que o outro não seja oposição; quer elogiar o sapato ao lado, mas teme passar por intrometido.

E na incontornável ânsia de falar algo que se aproveite, durante aqueles instantes na gaiola da tortura, este algo sai como o sonho na cabeça de quem dorme ou a diarréia no intestino em desarranjo.

Tirei minha conclusão e, não sabendo o que fazer além de uma crônica, fui tomar a fresca na praça. Contei sete elevadores em torno, escondidos, prestes a arrancar algum segredo sórdido.

E respirei aliviado por não estar dentro de nenhum deles.




*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trinta linhas

Foi a determinação do coach que, dez anos atrás, veio dar um treinamento sobre como publicar matérias na internet.  Mais de 30 linhas, ninguém lê! - martelo batido, ponta virada. E a Alta Administração satisfeita com os servidores treinados para os novos tempos. Naquele tempo, eu escrevia crônicas de uma ou duas páginas e pequenos ensaios de três ou quatro. Publicava no blog e postava o link no Face. Havia mais curtidas no Face que acessos ao blog. Como alguém pode curtir o que nem leu? Eu me aperreava, até que o coach veio com a solução. Trinta linhas, em dez parágrafos de 3 linhas cada. Assim, eu faria do Face a coluna de jornal que não tive e, sem ultrapassar a medida, seria lido. A coisa funcionou por um tempo, mas o tempo é cada vez mais curto e, a cada nova curtida, atropela-se a si mesmo. Insta, zap, tik tok, tic tac! Quando dei por mim, estava diante de outro coach, garantindo que, agora, são trinta segundos. Mais de trinta segundos, ninguém vê! Há dez anos, eu escrevia dir...

O 88º Conclave

Corria o ano de 1241. As disputas entre papas e imperadores do Sacro Império Romano-Germânico estavam aquecidas: Gregório IX excomungara Frederico II, que, por sua vez, marchou sobre Roma. Durante o cerco, morreu o papa. O senador Orsini reuniu uma pequena guarda e mandou trancar os cardeais presentes em Roma com a missão de eleger um opositor inequívoco do Imperador.  O primeiro Conclave tinha apenas 10 cardeais e explica um traço importante da História do papado: a nacionalidade de um papa esteve ligada a alguns momentos geopolíticos da Igreja Católica. Quando o Império Bizantino tornou-se hegemônico no Mediterrâneo, houve papas de origem grega. Quando os Staufer mandaram na península itálica, houve papas de origem alemã.  Quando a França tentou controlar o papado, houve franceses e muitos reinaram em Avignon. Então, reis europeus conseguiram conter os papas em Roma e eles passaram séculos sendo italianos. No século XX, o Colégio Cardinalício internacionalizou-se crescenteme...

Sobre um idílio

Já li de tudo um pouco: que 'Me Chame pelo Seu Nome' é uma história de amor, um drama gay ou a celebração nostálgica dos anos 80. Só não li o que o filme me pareceu. Imaginem vocês. A esposa de um professor universitário herda uma casa de campo na Itália e o casal passa as férias de verão lá com o filho de 17 anos, um aluno americano e amigos em trânsito. E o que eles fazem? Tomam banho de sol, lêem poesia, degustam frutas, tocam piano, passeiam pelo campo, discutem filologia, mergulham no lago, catalogam achados arqueológicos, fazem sexo. Tudo se desenrola sem pressa e com brio. A televisão é um detalhe no canto da parede, o telefone é um aparelho preso à tomada e a cidade mais próxima está fechada para o ócio. O cenário político da Itália dos anos 80 vem à tona e causa certa inquietação, mas o que empolga os convivas é a descoberta de restos de estatuária antiga no mar ali perto. Sim, é um filme que fala de coisas antigas, tão antig...