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Se nada der certo,



eu vendo o carro pra rebobinar a fita e reabro a Tela Vídeo só pra fazer matinê com aqueles filmes de arte que ficavam no fundo da loja e muito, muito lentamente se renovavam.

Melhor que isso. 

Se nada der certo, também vendo o apartamento, quito a dívida imobiliária e compro um terreno bem grande só pra fazer um novo parque do povo, cheio de ópera e repente.

E se nada disso der certo, aperto o cinto em casa, faço um consignado no banco e custeio a angioplastia de mainha, pra pagar o dano dessa aventura toda em seu coracisco.

Ou ainda!

Se nada der certo, vendo o relógio de algibeira ao relojoeiro que aboticou os olhos pra ele, compro uma carrada de livro velho no sebo e inicio o meu próprio negócio com as traças.

Sem falar que me sobram uns mil réis na poupança e, se nada der certo, eu faço a mala, compro a passagem e me mudo pro Leste Asiático; vou ensinar português brasileiro em Macau.

E se nada der certo, vendo os direitos autorais dos três livros e invisto o apurado em três doses de Cosmopolitan, em qualquer companhia, desde que tenha vista pro mar.

Tem mais.

Porque, se nada der certo, apelo pra Virgem Santíssima e prometo aceitar seu filho se ele me me der um bom adiantado daquela história do tudo em dobro no céu.

Agora, se nada der certo e eu tiver que ficar com os pés cá na terra, eu me viro nos trinta e vou ser um equilibrista de deixar com água na boca o moço que faz número no sinal.

E é bom que algo disso dê certo, senão eu marcho pra Brasília, derrubo Temer com uma redondilha, deixo o Supremo de tanga e mando o Congresso inteirinho pro olho da rua.

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