Pular para o conteúdo principal

Se nada der certo,



eu vendo o carro pra rebobinar a fita e reabro a Tela Vídeo só pra fazer matinê com aqueles filmes de arte que ficavam no fundo da loja e muito, muito lentamente se renovavam.

Melhor que isso. 

Se nada der certo, também vendo o apartamento, quito a dívida imobiliária e compro um terreno bem grande só pra fazer um novo parque do povo, cheio de ópera e repente.

E se nada disso der certo, aperto o cinto em casa, faço um consignado no banco e custeio a angioplastia de mainha, pra pagar o dano dessa aventura toda em seu coracisco.

Ou ainda!

Se nada der certo, vendo o relógio de algibeira ao relojoeiro que aboticou os olhos pra ele, compro uma carrada de livro velho no sebo e inicio o meu próprio negócio com as traças.

Sem falar que me sobram uns mil réis na poupança e, se nada der certo, eu faço a mala, compro a passagem e me mudo pro Leste Asiático; vou ensinar português brasileiro em Macau.

E se nada der certo, vendo os direitos autorais dos três livros e invisto o apurado em três doses de Cosmopolitan, em qualquer companhia, desde que tenha vista pro mar.

Tem mais.

Porque, se nada der certo, apelo pra Virgem Santíssima e prometo aceitar seu filho se ele me me der um bom adiantado daquela história do tudo em dobro no céu.

Agora, se nada der certo e eu tiver que ficar com os pés cá na terra, eu me viro nos trinta e vou ser um equilibrista de deixar com água na boca o moço que faz número no sinal.

E é bom que algo disso dê certo, senão eu marcho pra Brasília, derrubo Temer com uma redondilha, deixo o Supremo de tanga e mando o Congresso inteirinho pro olho da rua.

*


*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conclave, o filme

"O senhor acredita mesmo que o Espírito Santo escolhe o Papa?" - perguntou o jornalista. E respondeu o então cardeal Ratzinger, em um vídeo que pode ser visto circulando hoje no YouTube: "Sim, não esta ou aquela pessoa. Há muitos Papas na História que, evidentemente, não podem ter sido uma escolha do Espírito Santo. Mas Ele guarda o processo e evita que a coisa toda se perca." Pensei nisso ao ver o 'Conclave' de Edward Berger. Na superfície, parece o que todos comentam: um filme sobre intrigas políticas e pessoais, nada transcendentes, entremeadas na escolha do Papa. Mas um filme é mais que roteiro. Dois detalhes de 'Conclave' me chamaram a atenção tanto pela importância nesta obra de arte, quanto pela potência em captar sutilezas reais de uma cultura. Primeiro. O processo eleitoral caminha para o impasse depois que dois papabili têm candidatura e reputação arruinadas. Os escrutínios se sucedem sem que nenhum nome aponte a saída. Então, os tumultos d...

Mas pra que serve isso?

Talvez seja essa a pergunta que mais escuto quando comunico a alguém que tenho me dedicado aos estudos clássicos. E as duas respostas, que de fato me movem, nunca parecem satisfatórias. Uma: quero ler no original textos antigos que até hoje ecoam em nossa cultura literária. Duas: quero ler as fontes documentais e epigráficas dos processos formativos dos cristianismos originários. É um interesse no passado remoto que justifico, para mim e para as pessoas, com um olho no presente: acessar o anteontem para compreender dois fenômenos culturais do hoje - literatura, religião. Mas a resposta nunca responde. E quem danado se interessa por isso? Uma zapeada no Instagram e sabemos que os perfis classicistas contam, quando muito, alguns milhares de seguidores. Mas o tempo presente quer saber de alcance digital e sucesso comercial. As conversas de bar e zap giram em torno de trending topics & tops 5. "Entre no BBB!" é um conselho de mãe - a minha. Se o presente justifica-se a si mes...

Entre sonares e arpões

Um piano e uma biblioteca. Eis o desafio que lanço para corretores de todos os gêneros e não sei se compreendem mal, ou apenas fazem ouvidos de mercador diante de um ruído estranho. Ah, sim, como não! Aqui você pode colocar um painel, duas prateleiras de livros e um espaço logo abaixo para o piano. Mas veja, o edifício tem piscina, churrasqueira e sauna a vapor! E este ainda não é o problema. O problema, alguém pode dizer, é que o Sul descobriu João Pessoa. E sempre há um rico paulista disposto a pagar 500 mil numa quitenete, gourmetizada com o nome de loft para aluguel. Então, se você tem piano, livros e amigos para receber, faça o favor de ser milionário. Ou abra mão desses luxos e aceite que, a partir de agora, a casa é mero lugar de passagem pra dormir e ver TV. O terreno para um casa não é opção. Custa um olho da cara e o outro, não se pode perder para construir a casa em troca de dois buracos ao lado do nariz, para espanto da vizinhança melindrosa. O problema, digo eu, é maior. A...