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Contra o calor do zap


Vocês vão me dizer que sou ranzinza, e eu não lhes tiro a razão. O fato é que, coisa de uns seis meses atrás, bateu não sei que revolta e eu me retirei dos grupos de whatsapp.

Não de todos, que estou longe de ser um radical. Mas só fiquei na meia dúzia que congrega os íntimos, os que moram longe de mim e os que não fazem relatório até do espirro.

A coisa toda foi indolor e, exceto por um ou outro amigo receoso de ter me ofendido com o papo de mesa de bar, ninguém deu conta de haver menos um naquelas muvucas.

Mais que isso. Também avisei aos amigos que não discutiria mais nada sério pelo zap e, se alguém insistisse nisso, eu chamaria para um drink ou deixaria o sujeito falando sozinho.

Agora, se vocês me acharam ranzinza, eu só lhes digo uma coisa: a vida por aqui ficou tão mais feliz que já considero até a possibilidade de ir à praia e dar umas braçadas no mar.

Talvez tudo isso não passe de um defeito meu, que não tenho paciência para telecomunicações. O sujeito me liga, dá bom dia, pergunta pela saúde e comenta o preço do pão.

Até aqui, respiro fundo e agüento.

Mas aí vem o primeiro silêncio, sobrevém a segunda piada e no terceiro fuxico já quero pedir uma medida protetiva na Justiça. Imaginem isso tudo pela incansável matraca do zap.

Não se trata de eu ser um misantropo. Longe de mim, que curto papos e festas. O problema é reunir todas as relações na sala, no quarto e no banheiro todos os dias, o dia inteiro.

Aí o cara almoça no sábado e vai pra rede tirar um cochilo ou ler Guerra e Paz, mas passa pelo zap e é capturado por um turbilhão de rezas, tagarelices, correntes e salvações.

Há quem diga que, amornando assim o zap, dou uma de avestruz e enterro a cabeça pra não ver o caos. Fique no whatsapp e salve o país e o mundo com vídeos e memes!

Eu digo que assim é que miro o caos com a cabeça e me dou conta dessa louca fábrica de apocalipses, boa para o plantio de profetas, capitães e outros lobos do gênero.

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