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Cony cansado


Carlos Heitor Cony vinha cansando. Suas últimas crônicas pareciam cafezinho requentado com a própria borra. Ainda assim, eu gostava de ter dois dedos de prosa com elas.

Ele era o caso do cronista que passou de pai pra filho. Meu pai o lia desde os anos 60. Era e é fã daquela combinação de humor ácido e desencanto com erudição de seminarista.

Não lembro ao certo quando foi que ele me passou o gosto. Na verdade, parece que desde sempre Cony esteve entre nós, como um amigo da família que vem papear no almoço.

Ainda hoje, quando me liga entre o finalzinho da tarde e o comecinho da noite, meu pai pergunta:

- Leu Cony por esses dias?

E dá uma gargalhada comentando esse gracejo ou aquela tirada que, de repente, espantam a náusea e o tédio. Eu rio junto, com aquela risada que só Nelson Rodrigues me tira.

Tudo bem que a reputação literária de Cony se firmou no romance. Mas, cá entre nós, tenho uma preguiça danada de ler romances. Prefiro um calhamaço de História ou Filosofia.

Então, o Cony que ficou pra mim foi o cronista, adornado por esse toque de herança do espírito. Mas não é só isso. No fundo, o que me atraía nele era a nossa filiação comum.

Somos filhos de certo Brasil velho e católico, que ia à missa, queria ser padre e terminava ateu. E depois? Transferia a formação acumulada para um humanismo secular e literário.

Acima de tudo, um humanismo errático, sem o esqueleto dos sistemas acadêmicos de pensamento. Insuficiente pra fazer um scholar, mas de bom tamanho para um literato.

Talvez por isso o próprio Cony se levasse pouco a sério, dizendo-se inapto, inútil e medíocre. Claro que havia aí uma pitada de charme na receita. Mas havia algo mais que isso.

Havia a consciência de que em um universo altamente profissionalizado nas universidades e voltado ao mercado fora delas, restou muito pouco para um intelectual à moda antiga.

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