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Churchill literário



Muitas questões irrelevantes me inquietam e uma delas é esta: por que diabo tenho uma queda por Winston Churchill, se sou um pacifista e de britânico não tenho nem a Escócia?

Por muito tempo, achei que isso era culpa daqueles livrinhos com a biografia de grandes líderes que vovô José me fazia ler na infância. Mas já li tanta coisa mais adulta depois disso.

E sempre me pego pensando que, se eu fosse transportado para a Inglaterra de 1938, provavelmente apoiaria a paz de Neville Chamberlain, e não os brados de guerra de Churchill.

Por que, então, essa irresistível tentação de me informar sobre o homem? Mais que isso, por que essa curiosidade intelectual que, no fundo, tem o irracional quê do fascínio?

Não sei se tenho caminhado em direção a uma resposta ou se, muito melhor que isso, tenho aprimorado minhas perguntas. Mas sei de uma coisa que divido aqui com vocês.

Nos últimos anos, parece recuperar corpo certa tendência a tratar do Churchill literário. Na Inglaterra mesmo, saiu recentemente um livro acadêmico que tem este título.

Li uma resenha e fiquei interessado na tese. 

Leitor de romances de aventura e epopéias clássicas, o jovem Winston publicou em 1899 um livro que bem poderia ser lido como uma narrativa da Segunda Grande Guerra.

O autor então sustenta, diz a resenha, que o Churchill de 1939 levou para o campo de batalha o papel que imaginou para si mesmo, 40 anos antes, contra um tirano totalitarista.

Não sei se a tese faz historiografia, mas faz essa crônica, que aliás tinha o propósito inicial de tratar dos dois filmes mais recentes sobre o homem que jamais se renderia.

Tanto o trabalho de Joe Wright quanto o de Jonathan Teplitzky constroem um Churchill contestado e desacreditado em casa, ou escanteado pelos estrategistas americanos.

Mas, em ambos os filmes, é o orador que, no fim das balas, ganha força e cumpre seu papel de manter o moral de civis e soldados para que enfrentem e derrotem o inimigo alemão.

- Cícero! Cícero! Cícero! - berra o Winston de Garry Oldman.

Talvez os filmes façam cinema, façam propaganda e façam revitalizar no imaginário ocidental a figura do grande líder que se impõe pelo poder da palavra bem colocada.

E isso talvez me dê mais dois ou três botões para a velha inquietação.

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