Pular para o conteúdo principal

E o Rio continua sendo


Dois ou três amigos me perguntam sobre o que penso da intervenção no Rio e eu penso que, além de ser um desconfiado, estou apenas mal informado pelos jornais.

Os jornais me dizem, por exemplo, que houve doze ações do Exército no Rio desde 2008 e o comandante Eduardo Villas Bôas avalia o resultado como desgastante e inócuo. 

Quero então pensar que o Exército articulou com o governo a substituição de ações policiais pontuais pela intervenção direta e sistemática no comando do aparelho de segurança.

Mas aí vem o general Braga Neto e diz que acaba de receber a missão e está planejando como cumpri-la. Uma decisão dessa envergadura não foi integralmente traçada?

Os jornais também me trazem relatos de moradores de comunidades dando conta de que as doze ações de garantia da lei e da ordem não separaram bandido de gente de bem.

Invasões de domicílio, restrições às liberdades fundamentais, tratamento humilhante e estupro compõem o rol das violações alegadas. Afinal, que lei se garante dessa forma?

Eu penso então que, se o Exército vem apenas reproduzir um quadro já existente e não substitui-lo por um serviço eficaz de Inteligência, há gente graúda que lucra sem danos.

Os jornais ainda me mostram o alerta de pesquisadores em segurança pública: a metástase está no sistema prisional de todo o país, de onde o crime organizado comanda o caos.

Caos que conta com a cumplicidade de policiais e mandatários corruptos em quartéis e casas legislativas. Caos que se alimenta da segregação urbana crônica do país.

Então me pergunto se o Exército vem para resolver ou não passa de um inocente útil a serviço de um governo muito bem articulado com o que há de pior na sociedade brasileira.

E aí eu penso que, se não estiver desconfiado além da conta, tudo o que teremos será a impressão eleitoral de solução para que os senhores do crime continuem reinando.

Ora em guerra, ora em paz.

*


*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conclave, o filme

"O senhor acredita mesmo que o Espírito Santo escolhe o Papa?" - perguntou o jornalista. E respondeu o então cardeal Ratzinger, em um vídeo que pode ser visto circulando hoje no YouTube: "Sim, não esta ou aquela pessoa. Há muitos Papas na História que, evidentemente, não podem ter sido uma escolha do Espírito Santo. Mas Ele guarda o processo e evita que a coisa toda se perca." Pensei nisso ao ver o 'Conclave' de Edward Berger. Na superfície, parece o que todos comentam: um filme sobre intrigas políticas e pessoais, nada transcendentes, entremeadas na escolha do Papa. Mas um filme é mais que roteiro. Dois detalhes de 'Conclave' me chamaram a atenção tanto pela importância nesta obra de arte, quanto pela potência em captar sutilezas reais de uma cultura. Primeiro. O processo eleitoral caminha para o impasse depois que dois papabili têm candidatura e reputação arruinadas. Os escrutínios se sucedem sem que nenhum nome aponte a saída. Então, os tumultos d...

Mas pra que serve isso?

Talvez seja essa a pergunta que mais escuto quando comunico a alguém que tenho me dedicado aos estudos clássicos. E as duas respostas, que de fato me movem, nunca parecem satisfatórias. Uma: quero ler no original textos antigos que até hoje ecoam em nossa cultura literária. Duas: quero ler as fontes documentais e epigráficas dos processos formativos dos cristianismos originários. É um interesse no passado remoto que justifico, para mim e para as pessoas, com um olho no presente: acessar o anteontem para compreender dois fenômenos culturais do hoje - literatura, religião. Mas a resposta nunca responde. E quem danado se interessa por isso? Uma zapeada no Instagram e sabemos que os perfis classicistas contam, quando muito, alguns milhares de seguidores. Mas o tempo presente quer saber de alcance digital e sucesso comercial. As conversas de bar e zap giram em torno de trending topics & tops 5. "Entre no BBB!" é um conselho de mãe - a minha. Se o presente justifica-se a si mes...

Entre sonares e arpões

Um piano e uma biblioteca. Eis o desafio que lanço para corretores de todos os gêneros e não sei se compreendem mal, ou apenas fazem ouvidos de mercador diante de um ruído estranho. Ah, sim, como não! Aqui você pode colocar um painel, duas prateleiras de livros e um espaço logo abaixo para o piano. Mas veja, o edifício tem piscina, churrasqueira e sauna a vapor! E este ainda não é o problema. O problema, alguém pode dizer, é que o Sul descobriu João Pessoa. E sempre há um rico paulista disposto a pagar 500 mil numa quitenete, gourmetizada com o nome de loft para aluguel. Então, se você tem piano, livros e amigos para receber, faça o favor de ser milionário. Ou abra mão desses luxos e aceite que, a partir de agora, a casa é mero lugar de passagem pra dormir e ver TV. O terreno para um casa não é opção. Custa um olho da cara e o outro, não se pode perder para construir a casa em troca de dois buracos ao lado do nariz, para espanto da vizinhança melindrosa. O problema, digo eu, é maior. A...