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O Brasil que eu quero



A revolução começa na sala de espera dos consultórios médicos, bem na hora que a secretária liga a tevê naquele programa mais besta que piada de doido ou português.

Um paciente pede que mude pros documentários da TV Escola, outra entra na fila com o DVD de A Grande Beleza e um terceiro implora que troque a revistarada toda pela 451.

Só nessa brincadeirinha, meia dúzia já se cura da dor nos trigêmeos antes mesmo da consulta, vai pro trampo mais alegre e passa o resto do dia sem baixar desgraça no zap.

A revolução se espalha daí pra sala de casa, bem na hora que o canalha que berra no programa policial ou no púlpito de falso profeta começa a encher os bolsos e sugar as mentes.

O filho bota um Waldir Azevedo pra tocar na vitrola, a filha abre uns bagulhos de Jorge Amado pra ler à meia sola e os pais se perguntam de onde foi que saiu tanta imaginação.

Daí para os salões de baile, a revolução se alastra mais veloz que num clique e estoura bem na hora que os pancadões começam o blitzkrieg nos tímpanos do ouvido.

O formando pede à banda uma seresta, a noiva diz pro noivo que só casa ao som de um bolero e os convivas conversam e se abraçam e beijam como deuses no Olimpo.

A coisa então vai ficando tão séria que chega à sala do Ministro da Cultura e ele convoca cirandas, batuques, rodas de leitura e cineclubes pra entender o que não carece de lei.

A reunião termina, sem conclusões, numa roda de samba, onde rebolam o Ministro da Fazenda e o Presidente do Congresso antes de rabiscar as minutas da próxima reforma.

E daí seguem todos ao Palácio do Planalto, onde o Presidente da República e os chefões do tráfico assinam em versinhos safados o armistício para cem sonhos de paz.


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