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Sobre urros e cálculos


 Não sei por que falha de caráter, tenho o hábito de ler biografias. Chego a preferir uma gorda biografia em dois tomos de letras miúdas a um bem costurado livro de poesia.

Anos atrás, conversei com uma historiadora profissional que fez caras e bocas quando lhe confessei a preferência. Tentei me explicar com argumentos de ordem psicanalítica. Em vão.

Tudo que obtive da doutora foi uma torcida inapelável de nariz. Desde então, esse nariz troncho me aparece na mente quando tiro uma biografia da estante e estiro os pés na rede.

Por esses dias mesmo, ele esteve comigo à medida que avançava com dificuldade pelas trincheiras da vida de Churchill segundo Martin Gilbert. Dois tomos, letras miúdas.

Historiador profissional, Gilbert tenta reconstruir não tanto os fatos, mas a percepção que Churchill tinha de si próprio como agente dos fatos. E faz isso por meio de atas e cartas.

O esforço é hercúleo, o resultado é cansativo. 

Acompanhei o menino Winston carente de afeto dos pais, vibrei com o jovem hussardo escrevendo reportagens, empunhando armas ou fugindo do cativeiro em batalhas.

Mas aí o homem foi eleito deputado, tornou-se ministro e a coisa toda foi ficando pesada como um desses relatórios que eu mesmo ajudo a escrever para o CNJ ou o TCU. Morguei.

Ainda tentei e teimei e insisti até que Churchill foi demitido do Almirantado, retirou-se para uns dias de férias e eu aproveitei a deixa para dar uma folga a Gilbert até a Páscoa.

Quando dei por mim, tinha na mão uma coletânea de perfis jornalísticos escritos por José Cândido de Carvalho. Coisa leve e fresca como uma salada que só dá para o almoço.

José Olympio aqui... Elizeth Cardoso ali... Juscelino Kubitschek acolá... Detive-me no presidente. Os casos foram retocando a imagem usual que memorialistas pintam de JK. 

O homem era maníaco por grandeza, não tinha muito compromisso com a matemática das contas e fazia tudo terminar numa grande roda de seresta. Um bom brasileiro, enfim.

Lá pelas tantas, Juscelino lamenta que o Brasil queira confiar seu destino à racionalidade dos técnicos, mas logo em seguida se empolga com as possibilidades da modernização.

Fim do perfil.

E eu fiquei me perguntando se não somos os brasileiros irremediáveis nietzscheanos, eternamente divididos entre o cálculo de salto alto ou gravata e os urros do bicho interior.

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